Unam-se, meus amigos!

28 Ago

É, meus amigos, um post depois de séculos e séculos de poeira acumulada. Não me estava fácil vir alguma idéia à mente; a maioria delas ou era ruim ou não conseguia tomar rumo… Em todo caso, finalmente, depois de muito vagar, consegui sentar o rabo na cadeira e colocar os córneos a pensar nalgum enredo, por mais estúpido que este fosse.
E, então, este texto que verão aqui hoje se desenvolveu de um sonho que teve um amigo de meu pai. Como está escrito, a história se trata de cinco personagens: Emílio, Marina, Roberto, George e Fernando; durante ela Emílio conta um sonho que teve, e, para arranhar este sonho no papel, foi quando me baseei no que teve o tal camarada.
Há também outro detalhe ao qual queria chamar atenção: a presença constante, ainda que intermitente, da música Come Together durante a fala e os pensamentos dos personagens. Explico aqui o porquê…:

“Here come old flattop, he come grooving up slowly
He got joo-joo eyeball, he one holy roller
He got hair down to his knee
Got to be a joker, he just do what he please

He wear no shoeshine, he got Toe-Jam football
He got monkey finger, he shoot Coca-Cola
He say ‘I know you, you know me
‘One thing I can tell you is you got to be free’

Come together right now, over me

He bag production, he got walrus gumboot
He got Ono sideboard, he one spinal cracker
He got feet down below his knee
Hold you in his armchair, you can feel his disease

Come together right now, over me

He roller-coaster, he got early warning
He got muddy water, he one mojo filter
He say ‘one and one and one is three’
Got to be good-looking ’cause he’s so hard to see

Come together right now, over me…”

Como talvez percebam, o personagem George foi baseado nesta música dos Beatles. E não digo isso apenas de minha parte, digo também da dele. Contar-lhes-ei parte de sua personalidade. George é um hijo-de-puta muito fã de John Lennon, mas que, amaldiçoadamente, foi batizado sob o nome de Harrison… Sua música favorita é, evidentemente, a que acima lhes deixei como presente; e, por gostar tanto dela e por se ver tão descaradamente retratado em sua letra (em especial quando Lennon canta “‘I know you, you know me. One thing I can tell is you got to be free!’”), resolve, aos doze anos, começar a deixar os cabelos crescerem. Até seus vinte e nove não corta um fio de cabelo, e eles finalmente lhe batem nos joelhos… De resto que posso dizer também é que ele é um ótimo patinador (na rua e no gelo), tendo como profissão os próprios in-line.

Agora, chega de revelar coisas sobre o enredo, e vamos ao que interessa (ou não…)!
~

~

George, Meio e Fim;

“Estávamos nós quatro sentados no hall de um hotel.”
Fernando, Emílio, Roberto e eu estávamos confortavelmente acomodados nas pesadas cadeiras do Shenanigan’s, nosso pub irlandês preferido, enfiado num dos cantos de Ipanema.

Emílio, que era então quem nos falava naquele momento, dava uma pequena pausa em sua história enquanto entornava mais um gole de seu Jameson. Todos os quatro, ali, bebíamos whisky, mas cada um saindo com seu preferido: Emílio e Fernando compartilhavam o gosto por Jameson, além de também compartilharem a cama; Roberto enfiava goela a baixo enormes abocanhadas de Ballantines, pois para ele aquilo e dinheiro eram como água, e uma água pra lá de sem fim; enquanto eu, que pouco conhecia de whisky, simplesmente me divertia bebendo um Glenfiddich, “Gostei muito deste nome, sonoro, não?”.

Os três acompanhamos Emílio, e também derramamos um pouco mais para fora dos copos. “Estávamos sentados em sofás muito confortáveis; o lugar se parecia com a entrada dali daquele Windsor da Barra, sabem?”, Fernando e Roberto fizeram que sim em silêncio, eu não concordei e quanto menos discordei – não tinha a menor idéia de que tal local se tratava. “Tudo em tons bege, amarronzados… Tapeçarias enormes cobrindo o chão; um piso branco que parecia mármore; abajures altos, acompanhando os braços dos sofás e com lâmpadas de bulbo alaranjado… Tudo era também perfeitamente impecável.”

“Certo, e o que tem, afinal, de tão importante este sonho?”, Roberto, falando com seu bigode empapado de bebida, logo se pôs a interromper o engenhoso Emílio. Fernando levantou a sobrancelha, “Deixe-o continuar com a história, criatura! Logo vai entender o motivo.” e respondeu-lhe com um viés de desgosto.

“Pois bem…”, Emílio tomou outro gole, limpando a garganta com a bebida e também com um leve pigarro, e continuou: “Nina aqui nos falava sobre o hotel, quando havia sido construído, como havia sido desenhado, tudo o que se poderia imaginar… Nós três ouvíamos atentamente; e é uma pena que eu não me lembre de nada, porque, pela atenção em detalhes, parecia ser até um lugar real…!”.

“Eu contava sobre o lugar?”, perguntei-lhe coçando a cabeça.

“Sim, sim. Disse-nos que havia lido sobre ele num romance…”

“Marina e seus romances.”, Fernando riu sorrateiramente.

“Marina e seus cabelos, isso sim!”, e Roberto, atrevido como sempre, e como nunca, passou aquelas mãos pesadas pelos meus cabelos. Lancei-lhe um breve olhar, e ele rapidamente tornou a recuar. “Desculpe…”

“Bom, e então, enquanto Nina já seguia numa explicação sobre o romance em si, de repente aparece George atrás dela.
“Eu e Fernando nos sentávamos num dos sofás; você, Roberto, estava deitado num outro, de lado e ouvindo a história; Nina se inclinava sobre os próprios joelhos, enfiada numa das poltronas. E, então, como ia dizendo, George surge não sei de onde e dá um enorme abraço em Nina.”

Roberto bateu com o copo na mesa e, ainda que encarasse Emílio em um olhar furioso, permaneceu calado, apenas observando-o. Eu girei os olhos e outra vez passei a mão nos cabelos.

“Marina… Desculpe não ter perguntado antes, mas você se importa que eu o… Bom, que eu o mencione?”

“Não, Emílio, não se preocupe. Já passei dessa fase. Já… Já terminei o luto.”, disse como em um enorme suspiro. Roberto passou o braço por cima de meu ombro e, dando-me um abraço, acolheu minhas mágoas como que sendo as dele próprias. Desta vez aceitei seu carinho; tinha problema somente quando se tratava de mexerem em meus cabelos.

“Então, ok… Onde estava? Ah, sim!
“George veio com aquela mesma cabeleira enorme, os fios castanhos pendendo até os joelhos (como nos bons e velhos tempos), e também veio com aqueles óculos de Lennon no rosto. O gingado de gato, os patins in-line amarrados juntos pelos cadarços e largados sobre o ombro… E chegou a ser engraçado, porque você mesmo, Roberto, foi o primeiro a pular para abraçá-lo! Todos o demos ‘alô’, e ele só se curvou, o ‘agradecimento-teatral’… Para depois puxar uma Heineken do bolso da calça, aquele bolso gigante…!”

“Da calça verde?”, perguntei.

“É, a calça de leprechaun!”

Roberto, numa outra porrada, deu um golpe com o copo contra aquela grossa mesa de madeira; algumas pessoas no pub olharam espantadas, mas ele somente caiu numa grotesca gargalhada: “Aquela puta calça feia!”. E acabamos rindo todos juntos; “É, tenho de concordar, a calça era feia mesmo…”, Fernando falou entre gestos envergonhados, “Não sei como pude ter costurado um troço tão brega… Mas George a usava assim mesmo.”.

“Ele falava que presente de aniversário não se deve recusar…”, completou Emílio. “E que roupa é ‘Tudo pano da mesma loja de departamento.’. Figuraça…”

“Aquele cara estava era chapado noventa e nove por cento do tempo!”, falou Roberto, “Nem eu, trêbado, usaria uma merda daquelas… Mas, vai, continua com esse sonho doido que agora eu estou gostando.”

“Se me concede o direito, monsieur…”

“Eu o concedo. Mas ‘monsieur’ o caralho; eu sou é Sir.”

“Ok, Sir…”, e Emílio voltou a se preparar para a narração. “Ele puxou uma Heineken do bolso e a entregou para Nina. Ela abriu a garrafa na barra da calça e a devolveu para George, ‘Toma, Harrison…’. Você era a única que o podia chamar por Harrison…”

“É.”, disse num arquear de cabeça, “Se outro o chamava assim, ele virava um bicho…”. E deixei lentamente que o rosto sorridente de George tornasse a brincar em minha cabeça; patinando para lá e para cá, reclamando de seu nome, cantando músicas de Lennon… Cantando Come Together à toda voz.

“Então, George, bebendo sua cerveja, começou a nos falar de um passeio muito maluco que dera naquela tarde antes de chegar até o hotel. Disse algo como… ‘Coloquei os patins para vir aqui, e estava um vendaval horrível… Sabe como são manhãs de Abril, não é? E o vento tava levantando toda a poeira do chão, tirando um monte de folha das amendoeiras ali da Grajaú… Começou a entrar pedrinha nos meus olhos, e nisso percebi que tinha me esquecido dos meus óculos! Aí voltei correndo para casa, peguei-os no quarto, e retornei à rua. Mas quando coloquei os pés na calçada, já não me lembrava mais de onde tinha marcado com vocês… E, como não tinha anotado, bom, me fodi!’
“E ele contou que resolveu, então, passar na casa de cada um de nós; mas que já tínhamos todos saído. A sorte dele, ao que parece, foi encontrar Yon no meio do caminho, e ele soube dizer onde estávamos. Só assim chegou a nos encontrar.”

“Yon?! Está de brincadeira, né, marmanjo? O filho-da-puta do Yon sabia onde íamos nos encontrar?”, Roberto desta vez não precisou bater na mesa, e simplesmente lançou suas palavras de forma bem ríspida, em puro descontentamento.

“Calma, vai se lembrando que isso foi só um sonho.”, Fernando passou-lhe seu copo de Jameson e disse outra vez para se acalmar. “Toma, o seu whisky acabou, e não quero mais o meu.”

“O whisky eu aceito; mas não vou deixar de me emputecer. Você sabe bem o que aquele bastardo fez com o George, e com todos nós por sinal!”, e simplesmente virou o resto do copo de Fernando (que ainda estava na metade) antes de chamar o garçom para pedir outras duas doses de Ballantines para si. “E vê mais uma de Glenfiddich para a garota aqui, seu Zé!”, completou o pedido, para depois virar-se a mim: “Você bebe muito rápido, nem parece mulher…”.

“Gosto de beber, só isso. E pára de chamar os garçons de ‘seu Zé’! Toma vergonha na cara, Roberto!”

“Tem vergonha também, seu Zé?!”, ele gritou ao garçom que, então, anotava os pedidos de outra mesa. O rapaz, jovem e simpático (além de, aparentemente, bem acostumado com bêbados como Roberto), apenas soltou uma risada.

“Espero que não esteja bebendo por causa… Bom, quer que eu pare de contar o sonho, Nina? Não me importo, é só uma bobagem qualquer…”

“Cara, não é nada disso. Gostei do whisky, não se preocupe. Fora que eu já parei com aquelas merdas de beber pra caralho. O danoninho-de-cana número um voltou a ser o Roberto aqui.”. Roberto secou o bigode e deu um enorme sorriso; seu orgulho, como todos já sabíamos, era ser chamado de ‘Danoninho-de-Cana’, por mais ridículo que o nome de nosso troféu soasse.

“Se você diz que não tem problemas…
“Bom, George tinha chegado, pelo que me lembro, umas duas horas atrasado, e disse, então, que havia aparecido somente para soltar um ‘oi’. ‘Já tenho de ir, minha gente; marquei um compromisso para hoje à tarde, e não posso faltar.’, disse-nos. Ele terminou a Heineken, enfiou a garrafa de volta ao bolso e, depois, deu um outro abraço em Nina.
“Durante o abraço você parecia muito incomodada, mas ele tentou a acalmar dizendo: ‘Ora, essa é minha poltrona, sabia? Hold you in his armchair, you can feel his disease…’. ‘E estou sentindo a doença.’, você disse. ‘É porque era para ser assim…’, ele respondeu.
“Quando ele a largou do abraço e tornou a se erguer, George estava… Daquele jeito… O cabelo raspado, sem camisa, só com uma calça jeans, e com o abdômen todo queimado da químio… Mas ele ainda sorria; e calçou os patins e foi até um canto do hall em que ficavam as portas de uns dez elevadores.”

O “seu Zé” apareceu e deixou sobre a mesa os copos de whisky de Roberto, mas fazendo questão de me entregar em mãos, delicadamente, o meu. Algo em meus olhos? Um sorriso alquebrado? Ele me perguntou serenamente se gostaria de mais alguma coisa, ao que respondi que não, e em seguida se virou para o resto da trupe para fazer a mesma indagação.

“Vai o de sempre, pessoal?”, Fernando perguntou para nós três. Eu dei de ombros, enquanto que Emílio e Roberto rapidamente responderam que sim. “Então, pode trazer uma quesadilla da Clare, por favor?”. O garçom atentamente anotou o pedido num bloquinho e depois nos deu as costas, ainda que não sem antes me lançar outro morno olhar. Roberto, aparentemente, ainda que dentro das névoas de sua bebedeira, notou o estranho apreço do rapaz e, por debaixo da mesa, me deu uma leve cutucada na perna. Eu ri e o cutuquei de volta.

“Então, onde eu estava…?”, Emílio sem notar as brincadeiras retomou sua história aos lábios. “Bom… Ah, sim…!
“Ele foi até os elevadores e apertou o botão de um que ficava no canto, junto da parede. Perguntamos a ele para onde estava indo, e só nos disse que tinha um encontro no nono andar. ‘John, seu safado, vai encontrar a Yoko agora tão cedo?’, você, Roberto, soltou a ele. ‘Não, não sou lá chegado a mulher feia! Vou é me encontrar com o guitarrista da nossa bandinha…’
“A gente perguntou ‘O quê?! Como assim? Você vai se encontrar com o Harrison, George Harrison?!’, e ele disse que ia, mas que só ele podia subir ou o camarada ia ficar por conta da vida. Enchemos a paciência dele enquanto o elevador não descia, mas a todas as nossas tentativas ele respondia que não e que não. ‘Não dá, o cara vai ficar puto!’”, Emílio gesticulava como George fazia, gestos espaçosos e desengonçados.

“Quando finalmente as portas de metal se abriram, e mais uma vez o pedíamos para irmos juntos, ele deu um grito e entrou no elevador às pressas. ‘Só EU posso subir nesse elevador! Saiam daqui, não entrem, seus idiotas!’, e num mesmo instante já tinha ido embora… Só quando acordei entendi o que ele queria dizer; porque no sonho não sabíamos que estava morto. Para nós ele ia realmente se encontrar com Harrison, e ainda o xingamos um pouquinho depois que ele subiu…”

“De certo modo, ele ia…”, eu disse.

Todos se aquietaram e abaixaram as cabeças para outro gole em conjunto. Fernando pegara um dos Ballantines que Roberto havia pedido, e deveria apenas entornar para tentar afagar sua tristeza; “E pior que o filho-da-mãe ainda nos chamou de idiotas…”, e ele emendou a frase junto do whisky.

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6 Respostas para “Unam-se, meus amigos!”

  1. Rodrigo Luiz Sampaio 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 3:15 AM #

    Ta bem entendida de whiskey, gostei de ver! XD.
    Surpreendente a leveza do cenário montado, e muito interessante este George, figuraça… Bem, não adicionei muito ao que já tinha comentado, ótimo texto. XD

    • P. Guerra 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 5:15 AM #

      Hehehe
      George é o melhor personagem, a minha opinião, que fiz em tempos. ‘Qui a pouco vou colocar meu desenho dele lá no Fcbook.

  2. Augusto 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 3:42 AM #

    É como disse um amigo meu; primeiro prestar atenção à história e depois observar tudo, menos a própria.
    Interessantíssimo o texto. Aguardarei ao próximo que, espero, venha em breve!

    • P. Guerra 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 4:49 AM #

      Hehe.
      Vejo um certo Vasconcellos desmenbrando este texto, e encontrando umas pérolas-negras sobre a minha pessoa… Estou correcta? haha

      • Augusto 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 5:29 PM #

        Está. haha

  3. Cecilia 28 28UTC Agosto 28UTC 2011 às 5:04 PM #

    Excelente, como sempre! “Come Together”, junto de “Back in the USSR” são minhas preferidas. Bem curioso esse personagem George, e concordo contigo…the best so far. Keep it up, Paula! Beijones (:

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