Promessas incompletas e infundadas

2 Jul

“Era algo que eu tinha de fazer por mim mesma. Ouço essa música há meses e sempre penso nesse texto.”, hoje, eu e meu amigo carinhosamente apelidado como Fashion, estávamos conversando, quando me veio a vontade de escrever… Eu estava passando, dos CDs ao computador, minhas músicas do Red Hot, quando resolvi ouvir a faixa catorze do Stadium Arcadium: Hey. Cá embaixo, mais que por desencargo de consciência do que por uma razão concreta, está a letra da tal música:

.

Won’t somebody come along
And teach me how to keep it alive?
To survive

Come along and show me something
That I never knew in your eyes…
Take away the tourniquet

I used to be so full of my confidence
I used to know just what I wanted and just where to go
More than ever I could use a coincidence
But now I walk alone and talk about it when I know

Hey, awe yeah, how long?
I guess I  oughta walk away
Hey, awe yeah, so long…
Whatcha’ gonna do today?

I don’t wanna have to, but I will
If that’s what I am supposed to do
We don’t wanna set up for the kill
But that’s what I am about to do

Later I’ll cut you off
When you’re screaming into the phone
Hard to own

Anyway I want to let you know
That everything is on hold
What you gonna do to me?

You used to be so warm and affectionate
All the little things I used to hear my fairy say…
But know youre quick to get into your regret
Take a fall, and now you got to give it all away…

Hey, what would you say if I stay?
Stay for a while if I may
Say it again and I’ll come around
But not for the last time
Hey, what would you say if I change?
Change everything but my name
Play it again and I’ll come around, come around
But not for the last time, not for the last time…

You used to be so warm and affectionate
I used to know just what I wanted and just where to go
And now you’re quick to get into your regret
But know I walk alone and talk about it when I know

.
Bom, é claro que aí não está toda a letra da música; já que ela ficaria grande demais para caber bem aqui… Mas, depois, pretendo lhes mostrá-la mais a fundo. É uma letra muito bem trabalhada, cheia de caprichos; muito interessante mesmo.
E, agora, antes que eu me perca, voltemos a falar do tal texto…: como já devem esperar de minha parte, não é uma história alegre. Na realidade, apesar de eu estar, aos poucos, melhorando de alguns de meus problemas, projeto para que meus textos fiquem cada vez mais deprimentes. É claro que não é porque apenas gosto e porque me sinto à vontade com a tristeza; mas também, cada vez mais, quero fazer personagens mais trabalhados, não simples criaturas que habitam contos literários. E, acima de tudo, quero criar enredos mais longos para prender vocês, leitores, e para permitir com que sintam as dúvidas das minhas pobres criações… Por isso que, quase apenas como uma conseqüência, devem ver mais dor entre minhas palavras.
Hoje, se posso lhes indicar algo para que percebam melhor o texto tolo que lhes vem pela frente, diria para que bebam um pouco de licor de café, ouçam Hey e, depois, capotem seus carros numa estrada serrana. ”Beijos do gordo!”
.
.
.

~

Liguei o rádio e girei a chave do carro. O motor daquele meu velho Chevrolet tossiu e cuspiu algumas nuvens de fumaça; enquanto que meu rádio, já com o CD dentro do aparelho, se pôs a tocar uma daquelas minhas músicas…

Deixe me ver… Então deixei aqui, na sexta-feira, o disco um do Stadium Arcadium. E parei de ouvir exatamente na décima terceira músca, Wet Sand. É, agora só me resta escutar Hey…”, eu era um verdadeiro aficcionado por Red Hot Chili Peppers desde meus nobres sete anos de idade… E, agora, ali naquele traste de carro, tinha então meus vinte e nove.

Engatei a ré, coloquei o pé no acelerador e, calmamente, deixei que as rodas escorressem para fora da garagem. Lancei um breve olhar à minha pequena casinha, ali, uma daquelas tantas enfiadas entre as labirínticas ruas do Grajaú; e, dentro daquele meu olhar, também entreguei a ela um aceno de adeus… “Won’t somebody come along and teach me how to keep it alive? To survive…”, a música também corria caminho a fora, saindo das caixas de som.

.

.

Fazia pelo menos dois anos que não escutava essa canção; eu sempre a ignorava entre as outras faixas daquele álbum. Na sexta-feira de que falei, por exemplo, quando percebi que ela estava prestes a começar, apenas desliguei o rádio e fui dirigindo em silêncio os últimos quilômetros até minha casa. E por que razão eu mantinha tanta distância dela? Porque ela, simplesmente, parecia contar, para mim mesmo, coisas demais sobre minha vida…

Há mesmos dois anos, ou, mais especificamente falando, há dois anos e seis meses, num sombrio nascer-do-sol de agosto, em 2007, um acidente terrível tomou conta de tudo em mim. Eu estava passando um feriado junto de meus dois melhores amigos, André e Marcio, na casa de serra dos avós de Marcio (casa esta que, depois do falecimento de ambos os avós, fora herdada por ele; mas que, por alguma razão, por costume diria, continuávamos chamando de “casa do avô do Marcio”), quando, repentinamente, ouvimos um barulho ensurdecedor vindo da estrada…

Como disse, a casa ficava na serra, era uma daquelas poucas e pequeninas casinhas que pipocavam, do meio do nada, bem entre as árvores da estrada. E, sendo farreiros como éramos na época, passávamos toda e qualquer madrugada cem porcento ativos; naquele dia, então, não fora diferente… Lá estávamos, os três patetas, sentados na sala e jogando Sueca, quando aquele estrondo ecoou pelas subidas e descidas dos morros dos Três Picos. Levantamos todos num pulo e corremos para a janela da frente; ao encararmos a estrada, que se encarapitava um pouco acima do nível de nossos olhos (já que a casa ficava abaixo da altura da estrada), vimos um carro prateado virado de cabeça para baixo e achatado de cara contra uma árvore.

André, que já tinha tomado muito mais que umas e outras, mostrava então seu lado de menino (que parecia sempre se aflorar com a bebida), e, possivelmente graças aos muitos traumas de sua infância, logo ficou paralisado, duro como uma pedra, e se recusou a ir até o acidente. Marcio e eu, então, fomos os que resolveram correr até o carro. Ambos tínhamos expressões de terror nos olhos, ainda que ambos estivéssemos também bêbados e, teoricamente, alienados.

Subimos o caminho de pedras que saia da casa e zunimos até a estrada, o carro estava do lado oposto da casa do avô, então, desajeitados, cambaleamos até o outro acostamento. Só havia uma pessoa no carro, uma mulher, e seu corpo, esmigalhado entre as ferragens, jorrava litros de sangue para as plantas da beira-de-estrada. Marcio, no mesmo instante em que viu aquela figura contorcida e distorcida, ajoelhou-se no asfalto e vomitou; eu corri até ele, falei para se limpar e para telefonar a jato aos bombeiros – já que André deveria ainda estar estático, encarando a cena pela janela. Ele se levantou, completamente tonto, e correu para fazer o que lhe havia dito; enquanto isso, fui em direção ao carro…

A mulher tinha longos cabelos castanhos, e seu tórax estava amassado contra o volante; aproximei-me da janela e a encarei profundamente, ela parecia estar apenas inconsciente, “ainda viva…”. Depois disso, tentando ser, de algum modo, calculista e frio àquela cena, me pus a observar o carro em si. Cheguei à conclusão de que poderia arrancá-la para fora do carro através de sua própria janela, o que, de certa forma, me foi um alívio… E então, lentamente, enfiei a mão dentro do carro e desatei o cinto-de-segurança, coloquei meus braços ao redor do troco da mulher e a puxei para fora.

Enquanto a puxava, pude sentir suas costelas, fraturadas de cima a baixo, rangendo e estalando… Aquele sangue vermelho que escorria por todas as partes caia sobre minha pele, manchando minha blusa e minhas calças jeans… Quando finalmente tinha conseguido colocar toda ela sobre o leito da estrada, da maneira mais delicada que pudera, encarei aquele pequeno e triste corpo.

Quantos anos ela deveria ter, eu me perguntei… “Talvez uns trinta e alguma coisa.” Como aquilo havia acontecido? “Será que ela dormiu sobre o volante?” Olhei ao meu redor e vi que a manhã subia nos céus; o sol raiava, enquanto que aquela fria névoa da serra se dissipava lentamente. Eu havia, de fato, conseguido tirar a mulher para fora do carro; mas, fora aquilo, eu já não tinha a menor idéia de o que fazer.

Agachado ali, na beira da estrada, os pés sobre as gramíneas que brotavam por sobre o asfalto, apenas consegui observar aquele rosto… Um rosto calmo, lento, como que pensativo em sua inconsciência. Os cabelos castanhos que eu vira de longe agora se mostravam em um curioso esplendor: eram todos decorados por cachos grandes, frondosos… E, sobre seus olhos fechados, duas sobrancelhas grossas, não feitas, pareciam me passar algo de muito doce sobre aquela mulher. “Ela deve ser ocupada… Filhos, marido…”, ela tinha uma aliança de ouro-branco em seu anelar esquerdo, “Deve ser uma boa esposa e uma mãe delicada.”.

Então, enquanto eu a observava, esperando esperançoso por uma rápida vinda da ambulância, a mulher repentinamente abriu os olhos. Foi algo surpreendente, ainda que bem lento: suas pálpebras se descerraram sob o sangue que escorria dalgum ferimento em sua cabeça, suas pupilas estavam dilatadas, e ela parecia completamente letárgica, absorta à dor que deveria estar encravada em seu corpo… Ela me ergueu os olhos e lançou um sorriso.

Alan…”, meu nome não é Alan, e, definitivamente, eu não conhecia ninguém que se chamasse assim; mas, por alguma razão que me pareceu óbvia, ainda que não o fosse, logo soube se tratar de seu marido. Alan… Vem cá, me dá um abraço.”, e aqueles lábios, outra vez, se esforçaram para falarem mais algumas palavras. “Sabe? Estou cansada… Você pode cuidar hoje da Ana e da Izabel? Elas nunca fazem o dever de casa… E acho que já comeram todos os cookies do pote de biscoitos; eu tinha escondido o pote, mas elas encontraram. Cuida delas… Só hoje…?”, e, sim, ela estava morrendo… Alucinando em seus últimos suspiros, suas últimas pesadas forças.

Coloquei as mãos entre os cabelos da mulher e a acariciei da maneira como imaginava fazer seu marido Alan… De meus olhos eu chorava lágrimas chocadas, que corriam através da enorme brutalidade daquela cena. “Ei, queria jogar fora as latas, e os lápis… Mas aquele seu labrador está roendo todas as sacolas. Cuida dele também…” E eu me perguntava o que fariam aqueles quatro, sozinhos, quando ela se fosse… Alan, Izabel, Ana e o labrador, aonde iriam sem ela e onde estavam naquele momento? Ela sairia em poucos instantes; o que eles fariam sem ela?

Um abraço…”, e eu apenas me deitei sobre o corpo dela, tentando ignorar os ossos quebrados, e a abracei ainda como se pudesse fingir ser Alan, ou fingir ser uma de suas filhas… “Sabe que eu sempre lhe peço isso, mas você nunca faz… Por que agora, hein…? Cuida delas só hoje… Você é ocupado, reconheço isso; mas estou tão cansada… Não sei de onde está vindo tanto cansaço… Obrigada pelo abraço, sabe que sinto sua falta de vez em quando…

.

Minutos depois a ambulância chegou, e André e Marcio, juntos, os dois acuados, por fim se aproximaram da mulher e de mim. Àquelas alturas eu estava largado no asfalto, e um dos meus braços deitava-se sobre o abdômen da mulher – era um abraço lasso, mas o único que eu poderia dar em alguém que tinha todas as costelas recortadas. Os primeiros bombeiros que viram aquela situação acharam que eu também estava morto; mas depois que me levantei e que, completamente desnorteado, me pus a responder as perguntas de um deles, eles pareceram entender do que toda a cena se tratava… Como nos filmes e nas séries policiais, me enrolaram numa toalha e me deram uma xícara de chocolate-quente… Depois de já haver explicado tudo o que vira, fizera e ouvira, só me restava aquilo; e, assim, observei enquanto embrulhavam o corpo da mulher…

.

.

Como dizia a música, depois daquele incidente horrível, eu apenas andara sozinho, falando do que acontecera somente quando me sentia, de alguma forma, confortável para… “And, now, I walk alone and talk about it when I know…” Por vezes, que não foram poucas, eu sonhara sobre o carro capotado ou sobre a família da mulher de quem eu nunca soubera o nome… Eu ficara tão deprimido depois daquilo que quase tudo entrara ralo a baixo, se não tudo… Levara meu emprego e meu doutorado nas coxas, “I used to be so full of my confidence, I used to know just what I wanted and just where to go…”; terminara com minha noiva em uma ligação de telefone, uma daquelas entre berros, “Later on, I’ll cut you off when you’re screaming into the phone…”; perdera o enterro de André, e faltara a todos os aniversários de Marcio, “Hey, awe yeah, how long? I guess I oughta walk away…”.

Então, ali estava eu: um fumante inveterado, dirigindo seu carro velho e fodido, bebendo um pouco de licor de café direto do gargalo duma garrafa que sempre deixava no porta-luvas… Realmente não tinha muito do que me vangloriar; e, então, o CD corria para outra de suas faixas depressivas: Slow Cheetah, a número sete, o número do leopardo.

Waking up dead inside of my head; will never never do, there’s no med… No medicine to take…”, obviamente havia tentado me tratar com infinitas sessões de terapia. Eu passara por, pelo menos, três psicólogos e dois psiquiatras; mas tudo o que eles sabiam me dizer era que eu tinha um tipo de transtorno pós-traumático… E estava farto de ouvir aquilo, farto de tomar todos os comprimidos, de engoli-los como se fossem pastilhas Mentos ou como se fossem umas daquelas bolinhas de açúcar. De fato, nada parecia me adiantar: assim como leopardos não significavam nada para mim, a terapia me passara desapercebida, e parecera dar sequer um tapa eu meu trauma…

Encarei meu relógio, pendendo num pulso magricelo e pálido, e tentei abocanhar o bocejo que escapava entre meus lábios: “Ok que são quatro e quinze da manhã… Mas ainda temos uma longa viagem pela frente.”… E aonde eu iria fora o que eu me perguntara no dia anterior. Eu sabia que precisava tirar, mesmo que à força, aquela coisa outonal de dentro de mim; ou que, ao menos, precisava tentar de alguma maneira diferente… Após Slow Cheetah terminar, voltei a encaixar a faixa catorze no rádio.

I don’t wanna have to, but I will… If that’s what I’m supposed to do…”, e, depois de pensar muito sobre o que faria para arrancar meu trauma de mim mesmo, decidira que não havia coisa aparentemente mais óbvia: eu tinha de revisitar a casa do avô do Marcio, precisaria rever aquele cenário de anos anteriores…

.

.

.

P.S.: Antes que eu tenha de ouvir de outra criatura um comentário como “Aê, não sabia que ambulâncias tinham suas próprias maquininhas da Nestlé, com chocolate-quente e tudo mais.”, pelamordedeus…! Tem uma casa do lado do acidente… Seus DEABOS!
P.P.S.: Isso não foi uma afronta a ninguém específico… Juro pelo filho-de-deus crucificado, mortinho e esturricado! (Só falo merda… Me tirem daqui antes que os católicos me queimem numa fogueira…) Ignorem a dupla negação, eu não quis dizer nada com isso… Prometo…!

5 Respostas para “Promessas incompletas e infundadas”

  1. Rodrigo Luiz Sampaio 2 02UTC Julho 02UTC 2011 às 10:02 AM #

    Sua mentirosa! Esse P.S. foi pra mim, porro!!!! kkkkkkkkkkkkkkk

    Gostei muito da história, espero que você termine a história algum dia! E muito obrigado pela dose matinal de boa leitura (ainda mais sendo citado no post, e duas vezes… rs). XD

    • Paula Guerra 2 02UTC Julho 02UTC 2011 às 10:12 AM #

      Vai tomar café-com-leite, vai, homem…

      • Rodrigo Luiz Sampaio 2 02UTC Julho 02UTC 2011 às 10:18 AM #

        Vou tomar café com whiskey, isso sim, mulher! XD

  2. Rodrigo Luiz Sampaio 2 02UTC Julho 02UTC 2011 às 10:03 AM #

    Ah… Já enviei esse post para o Vaticano, aguardar a resposta deles… rs

  3. Diogo Figueiredo 3 03UTC Julho 03UTC 2011 às 6:10 AM #

    Sensacional. Eu usaria muitos pontos de exclamação se não fosse pelo meu teclado defeituoso, mas gostei muito mesmo.

Deixar um comentário

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.