Alguém já percebeu isto? – normalmente meus personagens homossexuais são, a suas estranhas maneiras, pessoas bastante masoquistas… E hoje venho com dois textos, meio que “para encher lingüiça”, de quatro personagens homossexuais. Você que se sente incomodado com masoquismo, ou com homossexualidade: “Oh, sim, isso é uma afronta a você!”, porque estou bem cansada de considerarem textos com esses dois assuntos, especialmente o assunto gay, coisas chocantes, inovadoras ou absurdas. Já está mais do que na hora de vermos tópicos como estes como coisas absolutamente normais, das maneiras absolutamente normais que são! Vocês perceberão que, nestes dois textos, eu poderia muito bem ter posto uma mulher no papel do homem passivo; sim, de fato eu poderia, não faria diferença alguma… Ou seja, o casal gay não é o tema da história, e nada transcorre por sobre o fato desses quatro personagens (Anton e Jeffrey do primeiro texto, Frederico e Jonathan do segundo) serem gays… Afinal de contas, para que eu faria isto? Para ter de falar do sofrimento de pessoas que são homossexuais ou bissexuais ou transsexuais mediante à sociedade? Acho que todos, não só eu, estão cansados disso: cansados de vermos pessoas sofrerem por elas, simples e puramente, serem como são… Logo, não pretendo tão cedo fazer textos quanto a isso. É claro que, graças à minha alma controversa, posso decidir-me pelo contrário do que disse e, dia desses, escrever um texto falando sobre esses tipos de injustiças; mas, vocês, como meus pobres leitores, devem entender que eu terei alguma razão caso o faça…
Portanto, é basicamente isto. Avisados vocês o foram.
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Um Corte;
A terra chacoalhou sob meus pés… Segurei-o pelo braço, puxando seu corpo para um encontro apertado e íntimo: “Beije-me, Jeff…”, e, pela primeira vez, ele não negou minha vontade, deixando para trás as insistências com as quais eu normalmente tinha de lidar.
Jeffrey… O dono do sorriso envelhecido, algo que me fazia lembrar os seriados a que eu assistia no cinema quando pequeno… Jeff, cheio de apelidos e vivendo sempre numa maré de garotas loiras: agora eu o tinha em minhas mãos, mas como conseguira fazê-lo? Ah, eu sequer sabia…
“Anton, você quer que eu o machuque?”, ele me empurrou contra a parede do pequeno corredor onde estávamos e, então, puxou meus cabelos com força. “Se for àquela maneira… Você sabe que aquilo sempre machuca.”, respondi.
A noite estava absurdamente quente e abafada, além de, como de costume, silenciosa… Eu podia ouvir algum grilo, ao longe, executando sua sinfonia, bem distante do prédio de apartamentos onde Jeff morava; e também podia, graças àquela estranha concessão, sentir os arquejos úmidos dum homem queimando meu pescoço…
“Por quê…?”, mais uma vez ele soltou-me uma pergunta. “Por que você quer que eu faça isso se sabe o quanto dói?”, e eu não sabia dizer se era mesmo sua curiosidade que a trazia à tona, ou se ele apenas a fazia para poder ouvir aquela simples e mesma resposta: “Porque isso me dá prazer também… E eu preciso de você, de todo você…”.
E pude sentir o chão tremer novamente… O piso de azulejo do corredor do quarto andar, rangendo entre os rejuntes, parecia poder quebrar conforme minhas forças se desfaziam entre os braços de Jeffrey… “Anton, você está bem?”, pois tudo aquilo era demais para mim: uma vontade que jamais seria preenchida da maneira correta.
Uma rajada de vento veio da janela ao final do corredor, deslocando aquele ar tão pesado e levando algum pedaço de meu corpo para bem longe; “O tempo está mudando, Jeff…”, meus joelhos dobraram sobre o peso de meu próprio corpo, e, por sorte, Jeffrey conseguiu segurar-me antes que eu atingisse o chão.
“Você está se sentindo bem…? Ant, você está sangrando!”
“É apenas um corte…”, que eu havia feito horas antes de encontrá-lo, um corte à faca, enorme, de trinta centímetros de comprimento; e ele levantou minha camisa, encarando num enorme susto meu abdômen rasgado. “Não é profundo, sabe?”, mas o sangue que antes havia estancado voltava a escorrer, passando entre minha virilha…
Então, ele agarrou-me pelos braços e me sacudiu: “Por que você fez isso?!”. Jeffrey era um homem forte, belo, mas com algo insuficiente habitando seu corpo e sua alma… “Você… O chão, sabe? E o prazer e a dor e essa insatisfação, é tudo tão confuso, tão próximo! Jeff, me force como se eu não o quisesse… Talvez assim…”
Eu precisava daquele homem, mas teria de transformá-lo para alcançar o que eu queria… Demais. Fazê-lo perder aquele sorriso antigo, mover toda sua vontade de viver para cima de mim, para completar-me e para afundar minha alma bem além do fundo do poço… E ele teria de fazer o impossível… Fazer tudo… Fazer meu leito…
“Oh… Sabe aquela sensação pouco antes do orgasmo, conhece aquele pico alto e fino de pura intensidade…? Você sabe. Você conseguiria me deixar nele para sempre… Eu vejo isso em seus olhos…”, e aquelas pupilas negras de Jeffrey me encaravam por detrás da minha insanidade… “Não me ama, J.?”.
“Claro que eu o amo, Anton!”
E o teto rosnou para mim com enorme repugnância, enquanto as paredes xingavam meu nome, perguntando a si mesmas aonde eu queria chegar… “Então, me preencha… Eu quero o prazer que só você pode me entregar! Aquilo, oh, sim!”. E, numa questão de segundos, ali mesmo, Jeff tirava nossas roupas, com todo meu sangue manchando seu corpo… “Me leve ao abismo!”, absolutamente desesperado para me empurrar nele.
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E a Sanidade;
Ouvi passos leves e arrastados se aproximando da sala de estar, olhei para trás e dei de cara com Jon. Ele vinha de seu quarto, aquele pequeno cômodo ao final do corredor, e se aproximava de mim com todo seu corpo esboçando um enorme cansaço… Olhos baixios, seu rosto completamente desbotado. Jon se esgueirou até o sofá onde eu estava sentado e, ainda naquele ritmo estranhamente morno, empoleirou-se junto de mim. E ele se sentou daquele jeito antigo que eu tanto gostava, e do qual eu tanto sentira falta naqueles três anos: os pés sobre o estofado, os joelhos próximos ao corpo, a cabeça apoiada contra suas finas coxas…
“Jonathan… Você não deveria estar dormindo?”, e, soltando um leve sorriso, perguntei a ele.
Jon ficou ali, observando-me com seus olhos negros, gordos como os de um gato, antes de pôr-se ao trabalho de me responder: “Se eu conseguisse, estaria dormindo profundamente. Se eu conseguisse… – Mas, e você? Também não está no sono, e acho que não é a primeira vez que faz isso… Não desde que voltou para cá.”.
Olhei calmamente para aquele pequeno rosto, que, mesmo com seus vinte e três anos, continuava um belo rosto inocente e infantil. Eu ri, estiquei o braço para Jon, colocando a mão sobre seus cabelos loiros, e escorri para trás de sua orelha uma daquelas mechas acinzentadas da quais eu tanto gostava. “Loiro-acinzentado… Lembra-se de quando descobrimos que era essa a cor de verdade do seu cabelo?”, e, sem comentar sobre meu sono, e minha insônia, perguntei a ele…
“Isso parece ter sido há décadas atrás, quando, na verdade, mal faz cinco anos…”, ele riu, por todo nostálgico, “Não que cinco anos não sejam muito tempo; mas, sabe o que é, Fred? Esses três anos passaram tão demorados… Eles fazem tudo antes deles parecer distante, esfumaçado.”. E apenas acenei com a cabeça, pois não tinha mais nada a acrescentar, eu já concordava plenamente com o que Jon dissera antes mesmo de ele fazê-lo.
Levantei os olhos àquele velho e estático relógio de parede, que vivia pendurado naquela sala desde que Jon comprara seu apartamento. Eram três da manhã… E, por mais que nada físico houvesse mudado de lugar no meio tempo deste dia até quando eu correra para fora da cidade (também numa madrugada), eu sentia como se absolutamente tudo houvesse se modificado… “Se transformado.”
“São três da manhã, Jon… Vá deitar. Pelo bem de seus estudos… – Ou, se não, ao menos me conte por que não consegue dormir…”
Jon ergueu seu rosto e, num mesmo movimento que aquele meu, lançou um olhar ao relógio… “Estou com medo, Fred. Realmente sinto muito medo de algo…”, então, com isto, voltou a deitar a cabeça sobre as pernas, encarando-me bem em meus olhos.
Logo eu me recordava do motivo que me levara a voltar ao apartamento de Jon. Meu melhor amigo, o irmão que eu acolhera debaixo de meus braços faziam quinze anos, ele estava completamente enfermo… E aquela doença, seja lá qual a que ele tinha, aos poucos parecia tomar conta de seu corpo, um homem tão jovem… – Jon passava horas rabiscando as paredes de seu quarto, as quatro paredes que já não tinham mais um espaço sequer para seus rabiscos; Jon despenteava, penteava, despenteava, penteava, ele brincava com seus cabelos loiro-acinzentados como se fosse o jogo mais empolgante do mundo; Jon dizia, dia e noite, que iria morrer repentinamente, ou que iria se matar… “Jon, Jon, Jon.
“O que o fez ficar assim? Meu amor…? O que o fez ficar assim, meu amor?”
“Do que você tem medo? Não há nada aqui para se ter medo de… No máximo, você deveria se assustar com a comida do Érico; fora isso, nesse apartamento, juro que não a nada com que se preocupar!”
Jon virou o rosto, o afundou contra os joelhos, e fingiu rir tranqüilamente de minha brincadeira… Eu mesmo fingi achar alguma graça nela. Mas de nada me serviria, quanto menos a ele adiantaria: nós dois sabíamos que realmente havia do que se temer… Ambos entendíamos que piadas, brincadeiras, ou até mesmo a própria felicidade não se passavam de coisas meramente momentâneas. Jon tinha medo, e seu medo era real.
Ele voltou a deitar o rosto de lado, com aquele delgado nariz apontado para mim, e, então, me respondeu… – Preferiria que ele não tivesse correspondido à minha pergunta, que somente a houvesse ignorado: “Tenho medo de mim mesmo.”, porque eu já sabia a resposta horrível que iria receber.
Olhei novamente ao relógio, fingindo que observar os ponteiros pudesse, de alguma forma, me reconfortar… “Três e dezessete.”. Entretanto, vê-los, naquele instante, teve o efeito extraordinariamente contrário… Porque até mesmo nosso velho relógio de parede, bem como os estiletes que eu sabia que Jon mantinha para si, bem como as facas de cozinha, ou seus remédios antidepressivos e cruelmente pesados, ou a grossa corda que ele reservava guardada na despensa… Tudo lhe poderia servir de arma, de “amortecedor”… Nada naquele apartamento reconfortava.
“Ei, Jon… Venha cá…”
E, num abraço gentil, aproximei Jon de mim. Acariciamo-nos lentamente, e lentamente nos beijamos… “Será que isto ainda se salva?”. Afundei meu rosto contra as mechas de Jon enquanto arrancava sua roupa; nós dois caídos naquele profundo sofá cinza. E ele – o jovem rapaz que nossos amigos haviam apelidado, a suas maneiras criativas, de Kurt -, naquele seu estado completamente depressivo e cancerígeno, beijou meus cabelos pretos, longos, impuros e impróprios…
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P.S.: eu tenho de dizer isso… Eu tenho!
“FUCKKÓFI!”, uma homenagem a um homem que mandou todo mundo se danar. E com muito estilo! (Sim, estou sendo sarcástica.)
Thiêta, Thiêta, Thiêta!!!
Como de costume, gostei muito, muito de ambos! Mas “E a Sanidade” foi o auge…lindo. Keep it up, girl!
Beijones (:
Bom ver que mexeu em um texto antigo e parou um pouco com aquele lance beatnik chato.
Gostei bastante dos textos, o segundo principalmente, me lembrou uma das melhores esquetes que fiz no teatro, que tinha uma história muito parecida, tirando a parte final, sou comprometido quando se trata de atuar, mas nem tanto. AHUAUHUHAUH