Há aqueles que achem estranho o fato de que, em meus textos e histórias, normalmente trabalho com protagonistas masculinos. É, isso é bem estranho mesmo; eu concordo com aqueles que o acham! Por vezes pensei sobre o assunto, e, também por vezes, cheguei à conclusão de que era, simplesmente, porque eu lia muitos livros com homens no papel de protagonistas, e que, portanto, havia me acostumado com a idéia. Mas, mesmo assim, vocês não continuam achando estranho o fato de uma mulher preferir escolher homens para a retratar? Eu continuo!
Depois de enrolar muito o cérebro para tentar tratar do assunto, acabei me lembrando de uma coisa… “Ei, e aqueles manolos que usam personagens femininas nos papéis principais?” Afinal de contas, quem nunca leu a letra de Why Go e de Daugther, deparando-se, então, com Vedder contando a história de uma garota deprimida? Ou quem nunca viu os filmes de Hayao Miyazaki? A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado, Nausicaä, Mononoke-hime, Kiki’s Delivery Service… Homens usando personagens femininas para se retratar? Bom, não sei se é o caso de eles estarem falando de si mesmos; mas, de uma forma ou de outra, são homens usando protagonistas femininas!
Fiquei meio aliviada com isso? Na verdade, tanto pouco me faz, quanto menos ainda me fez… Em todo caso, por que vim falar disso? Ah, sim! Porque hoje vou aparecer com um texto um tiquinho aleatório e, nesse texto, nosso personagem principal é o professor de Inglês e de Alemão chamado Roberto… Roberto vem a ser, curiosamente, meu pseudônimo; assim como, vez por outra, uso o nome John (de que gosto muito, muitíssimo) ou um nome qualquer com os sobrenomes Martins Marquez. Então, de certa forma, podem se assegurar de que Roberto é um personagem bem sincero, contando o que eu, P. Guerra, penso, e o contando de uma maneira também muito sincera.
Espero que gostem do texto.
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Cena 1. A tentativa frustrada de convencer sua namorada, e a mochila já feita;
“Você acha que é uma porra dum beatnik, que pode simplesmente pegar suas coisas e ir saindo assim de casa? O que, diabos, pensa que está fazendo?! Pega essa merda dessa mochila, e pode colocando os pés de volta!”
E Léa logo reagia da maneira como eu já esperava. No entanto, é claro que eu não me achava um beatnik, por mais livros beats que houvesse lido; quanto menos estava com os pés fora do chão… Quero dizer, talvez realmente todas aquelas idéias kerouacquianas tivessem corrompido minha alma e revirado minha cabeça, fazendo-me escolher por uma aventura também kerouacquiana… Na verdade, isso, de fato, havia acontecido. E, sim, é verdade…: talvez aquela minha repentina, impulsiva ação parecesse loucura! Afinal de contas, quem, num inferno de mundo como este em que vivemos, resolve fazer algo assim? Pegar uma mochila, pô-la nas costas, dar “tchau” à namorada e fugir de seu apartamento de uma hora para outra, em plena terça-feira… Ok, ok, eu deveria mesmo ter avisado à Léa daquela estranha, e misteriosa, perspectiva de vida que eu resolvera testar… – Ou, então, simplesmente ter escolhido um dia da semana visualmente mais propício para tentar algo assim… – Mas como explicar algo assim a alguém? Fora que, sinceramente, eu não enxergava motivo nenhum para ter de explicar minha idéia àquela garota! Léa me entendia, e ela queria fazer o mesmo que eu, bem em seu âmago ela o queria; quantas vezes já não tínhamos conversado sobre esta curiosa, rastejante e gélida vontade…? Milhares! E eu sabia que ela sabia que eu me lembrava de que ela se lembrava disso, dessas noites, madrugadas em claro, falando à solta de nossos transes sobre o futuro… Então, era por eu saber disso que aquela minha atitude impensada, na verdade, fora pensada (mesmo que apenas em meu subconsciente, e mesmo eu só me dando conta de quanto ela fazia sentido quando eu já estava bem ali, na soleira de nossa casa)… Porque eu sabia que Léa pegaria suas coisas e que ela iria atrás de mim! Só que…
“Vem comigo, amor! Vamos lá, vamos, vamos! ‘Let’s go get lost, let’s go get lost’…!” , e, tentando puxá-la pelo braço, chamei minha namorada para embarcar naquela loucura a que, então, eu dava início.
“Nem pensar! Se você quer inventar uma fantasia dessas, você pode ir indo sozinho… Eu não vou largar minha faculdade, minha família, todas as minhas coisas daqui para perseguir essas histórias doidas! Sinceramente, Roberto, esperava muito mais de você! Que está pensando?! Realmente acha que as coisas vão correr como se você fosse um Morrison, um Peart, um Anthony Kiedis da vida…? Você não é um rockstar, nem é um escritor beat, acabei de lhe falar isso!”, só que Léa não aceitou a idéia… Ela não aceitaria de jeito maneira, eu já havia previsto isso também… E, dando-lhe as costas (costas que eu esperava ter de mostrar somente às pessoas das quais eu não gostava, de que queria me livrar metendo os dois pés para fora do chão de casa, e para dentro do asfalto da estrada), tive de me conformar: aquela era uma viagem para um homem só…
“Merde, Ti Jean.”
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Cena 2. Aquela cena da escada em caracol e da banda de perdedores;
Léa simplesmente bateu a porta na minha cara, desligou o celular e, possivelmente, num daqueles seus atos de fúria feminina, arrancara o fio do telefone da tomada levando aparelho e tudo mais juntos (aquilo já acontecera noutra vez, quando ela não queria atender às ligações de suas tias maternas…). Então, por mais que eu tentasse me comunicar com ela, fosse para pedir permissão a voltar para casa, fosse para deslizar-lhe papos sobre a viagem (papos que eu imaginava poderem ter alguma magia de coerção), Léa não me atenderia tão cedo. O que fazia me sobrarem apenas duas possibilidades, uma bifurcação maldita à qual, sentado na escada de nosso prédio, naquele mesmo momento, eu amaldiçoava. Ou eu assumia minha derrota, e a derrota de todos os planos incríveis que eu havia bolado, e, então, ia me arrastando para casa de algum dos meus amigos para esperar pelo perdão de Léa; ou eu continuava com aquela viagem intensa e frenética, que, fatidicamente, poderia não dar em nada de bom… A decisão era difícil, e tudo me fazia pender para a proposta humilhante e retroativa de correr de volta para debaixo das asas de Léa… Fechei os olhos e, ali, ainda enfiado num cantinho da escada, com o rosto escondido entre as mãos, me dediquei a batalhar sobre o assunto. Algo shakespeariano, “Ser ou não ser, eis a questão?”, e obviamente muito patético.
No fim das contas, eu havia, de fato, chegado a uma bifurcação maldita: deveria aceitar meu destino como professor de Inglês e de Alemão (coisa da qual eu gostava bastante, apesar da má remuneração, dos alunos irritantes nos quais gostaria profundamente de dar um tiro, dos colegas de trabalho fechados e sem visão de vida etc), e, com isso, aceitando meu destino como um trabalhador economicamente ativo, aceitar também fechar meus olhos para aqueles sonhos infantis… Ou eu poderia correr atrás desses mesmos sonhos infantis… Era bater ou correr, babe: simples, eficaz, e continuamente shakespeariano.
E, por mais que eu continuasse pensando e pensando, no fim das contas, não conseguira sair de lugar algum… Abri os olhos e encarei aquela escada que subia em caracol lá do térreo de nosso prédio (não tínhamos elevador no prédio, morávamos numa construção de uns quarenta anos e de apenas quatro andares) até o corredor de meu apartamento. Encarei aquela escada como se fosse a coisa mais eficaz a se fazer, como se fosse algo que poderia salvar milhares de vidas e converter toda uma geração às palavras sábias de Mahatma Gandhi… Encarei aquela porra daquela escada com todas as minhas forças. Por vinte segundos (vinte segundos que, orgulhosamente, posso dizer que pareceram muito mais que vinte segundos. Talvez vinte e cinco ou trinta segundos para mim, naquele meu espaço-tempo distorcido de observador-de-escadas). Até, finalmente, tornar a fechar os olhos.
Estranhamente, quando, naquele instante, tornei a cerrar as pálpebras, caindo na rotineira escuridão dos olhos fechados e da mente pensativa, uma música invadiu meus ouvidos. Era quase como se uma banda inteira tivesse resolvido se sentar ao meu lado, todos encolhidos nos cantos dos degraus para deixar livre parte da passagem, todos entoando juntos a melodia… “Yes, there are two paths you can go by, but, in the long run, there’s still time to change the road you’re on… And it makes me wonder…”, era quase como se Plant estivesse ali também, enfiado no meio daqueles artistas de rua, acompanhado por Page, Bonham e Jonesy… Plant imaginando, cantando, fantasiando… Todos nós, perdedores, imaginando, cantando, fantasiando, após uma longa encaração de escada… E aquilo me fez pensar ainda mais; no entanto, do meio de minhas dúvidas, diferente de antes, surgia agora uma certeza.
Era verdade que eu estaria cometendo uma loucura, e que eu não era uma porra de rockstar ou de beatnik nenhum! Era mais que verdade que tudo poderia dar errado, e que eu poderia acabar morto num canto qualquer do Brasil, fingindo ter tomado a decisão certa, ou acreditando na minha imagem como a de um revolto, de um Che Guevara, um defensor da liberdade de expressão, um Geddy Lee da vida cantando Freewill… Ou algo assim… Mas, também, e curiosamente, aquela letra que Plant me cantara durante anos e anos, por sob sua voz vaidosa e cheia de pompa… Aquela letra também estava certa: se eu não morresse (e que fique claro que eu entendia perfeitamente a possibilidade de bater as botas durante minha viagem), eu ainda poderia voltar atrás, e, ainda por cima, poderia ter alguma história para contar a meus netos (se um dia tivesse algum neto)! A minha idéia imbecil que me pusera naquela situação humilhante, na verdade, fazia muito sentido… E meu subconsciente começava a se mostrar muito espertinho. Aquela idéia imbecil… Ela poderia me dar algo com o que sonhar a cada novo dia, e não simplesmente permanecer como um sonho envelhecido, pouco a pouco se apagando. Eu continuaria sendo o Roberto de sempre, porém, de alguma forma eu me sentiria mais completo… Completo… E, de outra alguma forma, eu sabia que me sentiria mais completo.
“Merde, Robert Plant!”, num segundo, eu já galgava andares abaixo.
Ótimo texto!!! Essa versão ficou ainda melhor que as iniciais… Mas, cadê a terceira cena??? XD
Gostei muito, tem alguma coisa nos seus textos que realmente me chama atenção, eles sempre me deixam pensativo. Muito bom mesmo!
Hmmm… Esperando a cena 3. xD