Someone eating a thorny little cactus.
Someone drawing an empty sex scene.
Hoje, frases perdidas e curiosas semearam minha madrugada… Dentre elas, as que ouvi no início do incrível filme de Oliver Stone, The Doors: “‘The movie will begin in five moments.’, the mindless voice annouced; ‘All those unseated will wait until the next show.’. We filled slowly, languidly into the hall. The auditorium was vast and silent. As we seated and were darkened, the voice continued. ‘The program for this evening is not new. You’ve seen this entertainment through and through. You’ve seen your birth, your life and death. You might recall of all the rest. Did you have a good world when you died? Enough to base a movie on?’”, “Is everybody in? Is everybody in? Is everybody in…? The ceremony is about to begin. Let me tell you about heartache and the loss of God. Wandering, wandering in a hopeless night. Out here on the perimeter there are no stars. Out here we is stoned immaculated.”. É claro que acabei de pôr estes poemas sob forma de prosa, ainda que as frases sigam cada verso. De toda forma, como venho dizer, estas estranhas frases deram me vontade de escrever minhas próprias; como, por exemplo, estas duas ao início do post… E outras que, ainda presas, descansam em minha mente. Mas, antes deste filme ou destes versos, havia escrito um texto que, com prazer, gostaria de postar aqui. Este é:
A Estranha do Noroeste;
Acordei ouvindo aquele som duro e assustador de um trovão golpeando os céus e sentindo gordas gotas de chuva caírem sobre meu rosto. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam incrivelmente pesadas, quase como se eu estivesse dormindo há meses. Deixei, então, que minha mente se levantasse primeiro, para que eu, apenas depois, fizesse o resto… Porém, em questão de segundos, antes que eu sequer pudesse tentar, já me encontrava ensopado de cima a baixo; “De onde está vindo tanta água?”. Continuava a escutar as trovoadas ecoando ao longe, mas agora escutava também a voz de uma mulher, uma mulher cantarolando bem próxima a mim… Abri os olhos.
Ao encarar o meu redor, me vi enfiado nas costas de uma picape cinza, todo meu corpo suingando enquanto o carro corria através de uma estrada, cortando uma extensão imensurável de asfalto. Pus-me sentado e tentei entender o que acontecia, como eu havia parado ali… No entanto, mal conseguia pensar: minhas pernas e braços doíam de ponta a ponta, e minha boca parecia um pedaço de couro, completamente crua e seca. Levantei o olhar ao céu e me deparei com nuvens de tempestade como as quais eu jamais havia visto antes; “Dessas nuvens… Agora faz sentido.”. E, assim como me doera descerrar as pálpebras, então eu batalhava para desgrudar os lábios; o fiz ainda encarando aquele firmamento enegrecido, e lentamente deixei que a água da chuva molhasse minha boca.
“And, if you hear me talking on the wind, you got to understand…”, aquela voz feminina ainda chegava até mim, e, de fato, vinha através do vento que zunia pela estrada. Virei-me para a cabine do carro e, sem nem pensar, comecei a socá-la; “Bom, tem de haver alguém dirigindo esse calhambeque; e esse alguém deve ser ela mesma.”. Alguns segundos depois, a picape freava lentamente, caindo para o lado do acostamento; e, quando o carro por fim parara, escutei a porta do motorista bater.
Veio até mim, gingando como um gato vira-lata, aquela mulher pela qual eu já esperava: era uma garota beirando os trinta anos, estava enfiada em calças de um jeans preto bem apertado e vestia uma blusa branca de algodão… Ela tinha enormes cachos castanhos que escorriam por sobre seus ombros, e, cobrindo seus olhos, lá estavam óculos escuros de armação prateada e de lentes marrons. “Hmm… Olá.”, ela parou junto às costas da picape e, com as mãos encaixadas nos bolsos, me cumprimentou daquele jeito tão simples. E, enquanto isso, a chuva continuava a cair, agora molhando também o corpo daquela curiosa, distante figura…
“Oi.”, cumprimentei-a de volta, “Será que posso saber o que estou fazendo no seu carro?”, e logo completei, perguntando sem qualquer rodeio. A mulher me lançou outro olhar por debaixo de seus óculos de policial e, sem também se preocupar com formalidades, rapidamente entregou-me uma resposta: “Essa é uma história meio longa, melhor lhe contar pelo caminho… Vem, salta, vai para o banco do carona.”. E, assim simplesmente, ela me abriu a parte de trás da picape e deixou que eu descesse. Senti-me intrigado com aquilo de “uma história meio longa”, e também com aquele ar tão cru da mulher, mas preferi não discordar e segui-la; “Ok, que assim seja.”.
Entramos no carro, e ela, de imediato, religou o motor ainda quente, dirigindo a picape para fora do acostamento do mesmo jeito lento e calmo com o qual titumbeara até ele. Lancei breves olhares para o painel do carro, me deparando com um enorme e rústico apanhador-de-sonhos dependurado em seu retrovisor: era extremamente bonito, e eu podia notar com clareza que havia sido feito, detalhe por detalhe, à mão… Fiquei quase que por um minuto admirando o trabalho tão sutil daquele artesanato, como se eu que houvesse sido capturado pelo apanhador; mas, depois de recuperar meus olhos a mim mesmo, dei a encarar a figura daquela mulher pela segunda vez.
Seu perfil era tão belo quanto sua fronte: seios fartos pendiam por debaixo de sua blusa sem o menor sinal de um sutiã para prendê-los, e seus olhos ainda se escondiam por debaixo das lentes castanhas… Havia ainda um outro detalhe nela que me chamou a atenção: subindo desde seu cotovelo direito e entrando por sob a manga de sua blusa, pude ver uma tatuagem preta e branca de um totem norte-americano… Aquelas figuras mal encaradas de águias e de estranhos espíritos indígenas fizeram um calafrio subir por minha espinha: parecia quase como se aquela mulher mesma fosse uma índia debaixo de sua pele leitosa, ou que ela estivesse possuída por uma daquelas estranhas figuras. Enredei meu olhar para frente e decidi não pensar naquilo; afinal de contas, eu deveria convir, havia ali algo muito mais preocupante que um apanhador-de-sonhos ou que uma tatuagem… “Que diabos de história deve ser essa? E como ela pode ter me feito parar… Parar aqui.”
P.S.: acredito que, antes de qualquer frase vaga, o título deste post tenha sido um pouco… Misterioso. Então, cá está a explicação: como podem ver, estou meio obcecada por desertos e índios estes dias. Isto descende, em parte, do fato de ter visto o filme dos Doors e, noutra, de estar assistindo a alguns programas sobre culturas antigas. Todavia, ao escrever aqueles dois versos, estava pensando em algo como o texto acima: um homem, vagando moribundo pelas Badlands, e tendo chance de comer apenas um cactus; enquanto, sentada em seu ateliê, uma pintora desenha, tristemente, a cena de sexo com seu vazio marido… E a que coisas cactus me ligam? Desertos, deserts. De que coisa sexo me lembra? Chocolate, dessert. Simples, não? Desserts, deserts. Um bolo francês, um coyote da costa noroeste.
Intrigante a história! E, diz, o que diabos o cara tava fazendo naquela pick up??? XD
Antes que eu esqueça… Ótimo texto! É incrível perceber como, a cada post, seus textos ficam interessantes e sofisticados, de leitura agradável e com uma intensa descrição de sentimentos, chegando a ser único o seu estilo.
Menina, você escreve tão bem que eu me sinto um tanto… envergonhado de ter criado um blog também! Além do mais, acho que você deveria escrever um romance. Acho que você leva jeito para essas coisas.
Abraços,
Danyllo
Mais um texto excelente!!! Mas isso não é novidade, correto?! =)
Amo vc!
Mil beijos!!
Intrigante, muito. Acho sua recente obsessão por indígenas norte-americanos, desertos e The Doors muito interessante (de certa forma, pra mim, essas coisas quase pertencem ao mesmo campo semântico, haha). Sei que o único compromisso que você tem com suas histórias é o de ter prazer em escrevê-las, mas please, please, please, dê continuidade a elas…ou pelo menos a alguma delas. É o humilde pedido de uma leitora assídua, huh. Beijones, Pólinha!