Capítulo Um, Mokuhime;

Eri se levantou repentinamente da cama, rolara sem paciência durante horas, tentara todas as formas possíveis de conseguir cerrar o sono sobre si mesma, mas tudo o que conseguira fora uma inconstante dor de cabeça. Ela puxou o cobertor junto e, arrastando-o no chão, caminhou rapidamente até o corredor da casa. As luzes todas estavam apagadas, desde a manhã daquele dia a energia acabara e Eri passara parte dele se revirando entre caixas velhas, procurando uma lanterna ou algum pacote de velas, achando, por fim, somente alguns cotocos de cera imundos, com o pavio quase sumindo dentro de si, além de uma vela de aniversário em formato de seis, “De quem poderá ter sido?”, ela se perguntou analisando-a calmamente, uma das mãos sobre o queixo e o olhar distante de sempre.
Eri pôs ambas as mãos na parede, tateando desconcertada, com o cobertor preso entre dois de seus dedos. Pôs o pé esquerdo no primeiro degrau da escada, a madeira rangeu vagarosamente, como se soltasse uma tristonha reclamação, pelo seu pescoço passou um leve arrepio e ela trincou os dentes, “muito cuidado, Eri”. No degrau que dividia a escada, deixando oito subindo e oito descendo, um ponto de luz tremulava iluminando o pedaço de caminho que seguia lentamente até uma das salas vazias do primeiro andar. Eri descera quatro degraus quando sentiu a leve curva que tinha de começar a fazer, nervosa, deu um passo em falso e ouviu o coração disparar, como se ela fosse cair naquele mesmo momento, e então, no impulso que levara da surpresa, seus pés engataram mais uma marcha e Eri engoliu os outros doze degraus em exagerada rapidez.
Ao colocar o pé esquerdo no piso da sala, seguido logo do direito, ainda na incerteza de seus passos, seu coração foi aos ares novamente, mas vendo que chegara sã e salva ela agradeceu profundamente, afinal, nunca tivera uma coordenação motora de total confiança. O chão gemeu como fizera toda a escada, a madeira daquela casa parecia estar completamente roída por dentro, mas ainda demonstrava certa firmeza, Eri virou-se para trás e viu que a vela do nono degrau apagara-se em sua correria.
“Droga, nunca mais vou conseguir acendê-la.”, ela disse, lembrando-se melancolicamente dos longos minutos que tirara tendo de pôr fogo em cada uma das velas que espalhara pela casa. Mas, por fim, deu de ombros, ela sabia muito bem que provavelmente passaria o resto da madrugada acordada, era uma garota de sorte insone.

Do lado de fora da casa, o som brando dos galhos das Ichou, as nogueiras-japonesas, enchia o ar, e levava a calma impressão de aquele vento e aquelas árvores serem uma única coisa, unidos por laços indiscerníveis. Tirando a franja despenteada dos olhos, Eri desceu para o genkan, seguiu o curto corredor de entrada dando as costas para seus calçados, juntos ao tapete de palha que tescia ares de recepção para a velha moradia, e então, deslizando um dos painéis da porta, deixou seu olhar recair sobre o abandonado quintal. Muitos pontos brilhantes, incertos, piscavam como lampadinhas de Natal no céu daquela noite, um vento frio passava e espalhava as últimas flores da árvore Kiri dos antigos moradores da casa. Eri pousou os dedos descalços sobre o chão de pedra que cortava caminho entre a grama alta, a friagem subiu pelo seu corpo, ela levantou o cobertor e o deixou cair sobre seus ombros, segurando-o com as duas mãos, encolhendo-se.
Ela olhou para aquela meiga Kiri, quando mais nova, na primeira vez que chegara aquela casa, ela deparara-se com suas largas folhas, mas a árvore ainda era tão fina que Eri sentira pena e receio dela torcer e ir ao chão com os castigantes ventos de inverno. Então, sempre que chegava a meados de Dezembro, ela, desde seus doze anos, corria até a casa, escondida de seus pais, e ia se certificar de que a princesa árvore ainda estava de pé. Os anos passaram-se, Eri cresceu, a árvore dobrou de tamanho, e nunca mais ela tivera a mesma preocupação, no entanto, pelo hábito, continuava indo, em cada mês de Dezembro, visitá-la.
Porém, naquela vez, ela fora mais cedo. Ainda era início de Junho, mas lá Eri já se esgueirava, caminhando pelas pedras polidas do quintal, indo até o tronco da árvore, sentando aos seus pés. Eri deixou o pescoço pender e encostou de leve a cabeça na árvore, ela olhou para cima e bisbilhotou as folhas que iam sacudindo-se, enquanto o vento brincava com os galhos, fazendo cócegas neles. “Ei, Moku-hime.”, ela abaixou a cabeça novamente, olhando para suas pernas finas largadas por debaixo do pano, coçando o nariz com uma das mãos. Eri ajeitou os cabelos, e mais uma vez lançou uma sombra, pelo canto de seus olhos, para a Kiri. “Você acha que eu vou acabar como a chinesinha que fez a plantarem?, e ela levemente suspirou. Será que eu vou mesmo acabar triste e sozinha como tantas vezes pareceram me dizer?”
E com uma gelada dor tomando conta de seu coração, enquanto, aos poucos, Eri percebia a loucura em seus sonhos e na dura realidade em que se encontrava, pousada sobre o chão gelado do quintal daquela casa abandonada. Ela chorou baixinho e encostou o ouvido no tronco da árvore, como se esperasse dela algum sinal, um leve uivo de esperança para Eri. A princesa árvore não respondeu, mas Eri continuou, ainda sim, aquele óbvio monólogo.
“Mokuhime, por que será que as coisas têm de ser assim? No que eu estava pensando quando falei aquilo para ele?, e por que eu resolvi abandonar o Tarou-kun? Eu disse tantas coisas sem sentido para ambos… ‘Ele não me entende, e é por isto que não quero continuar junto dele.’”, ela lembrou-se com vagar de suas palavras. Cerrou seus lábios e deixou aquele diálogo prosseguir dentro de sua mente: “E isto me assusta porque, se continuar a conviver com ele, estarei fadada a um dia ter de lhe explicar quem sou… Agora, você, Mizu-san, pela distância que nos finca, cada um em seu país,  nunca poderá me entender, mas, ainda sim, me entende… E é por isto, por conseguir me ver como sou sem eu precisar explicá-lo, que fiquei assim. Waterhouse-san, ah, anataga daisuki!”
Uma estrela cadente voou pelo céu, Eri rapidamente olhou para ela, assustada com sua repentina aparição. Há quanto tempo não via uma estrela daquelas percorrendo o monótono negrume que era o céu de sua cidade!
“Ainda sim… É verdade o que eu falei, mesmo que não seja fácil de absorver, mesmo assim. Eu gosto, realmente gosto…”, então, Eri passou a mão pelo rosto, secando as diversas lágrimas que haviam caído durante sua conversa com a Kiri. Ela virou seu rosto de lado e beijou de leve o tronco da árvore, viu um texugo correr entre os arbustos que separavam o quintal da floresta que o envolvia, o rosto entremeado entre preto, branco e cinza se fincou na mente de Eri, dentro de seus olhos.
“Escuta, é verdade o que eu disse a ele, tá? Pelo menos é o que estou ouvindo daqui de dentro de mim… E eu prometo, uma promessa de fundo de caixão, que, se eu conseguir alcançá-lo de alguma forma, qualquer uma, se eu conseguir amá-lo, se ele conseguir me entender sem me perguntar porquês a toda hora, como todos me fazem, prometo que nunquinha tornarei a tocar uma corda de um koto!”, seus lábios ainda encostavam-se no tronco da Kiri, as palavras gravaram-se em sua madeira. Viu mais uma vez passarem em correria a estrela e o texugo em sua memória, seria o sinal de algo?

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Kon ban wa! Estranhamente, hoje começo direto com um pedaço de história. Há dias seguidos venho tentando escrever algo que me soe bem, sem o menor sucesso, rascunhos de diversos textos desceram pelas minhas mãos, mas todos foram desaprovados, amaçados e jogados longe. Passei ainda algumas noites em claro escrevendo pequenas bobagens que, sinto muito, um caro leitor teve de se dispor a ver (eu realmente sinto por você, aquele texto estava um tanto “fumado”). Dava-me sempre por vencida, acabava retomando meus clichês, e apenas quando a noite invadia minha casa parecia que surgia a vontade sincera, e despida de qualquer preceito tolo, de escrever um parágrafo que fosse.
Por muitos dias passei apenas pesquisando sobre diversas localidades, descobri ilhas, terrenos italianos, recantos alemães do qual nunca ouvira falar, mas o problema era que o enredo não se desenvolvia da maneira que queria. Até então, apenas três dos personagens que criei nos últimos meses me chamaram real atenção:  Miyahara Rie, um de meus rascunhos, um rapaz de cabelos compridos e mania constante de colocá-los atrás das orelhas (apesar de ficar indiscutivelmente mais bonito com eles caídos sobre o rosto, coisa que me faz o jeito); Yumi Seishi, um moleque tímido e azarado, que tivera a infelicidade de ter o seu último desenho arruinado por um acontecimento de quê desconhecido (nunca use pedras esquisitas, achadas dentro de pergaminhos do arco-da-velha, para servir como peso de papel); e a pessoa acima, uma menina, também de vinda dos recantos do Círculo do Fogo do Pacífico, chamada Narikawa Eri, que, na verdade, não é bem uma menina, mas já uma jovem de dezenove anos. Entretanto, nenhuma das histórias dos outros dois personagens se desenvolveu tão bem quanto esta (a de Rie soava mais como um conto após goles de bebidas, contada por alguém vermelho como um pimentão, e a de Seishi vai ficar para virar mangá, se assim os senhores quiserem), e é por isto que resolvi colocá-la aqui, quebrando a greve de textos estranhos e de aparições desconcertantes minhas.
Então, o que acham de eu explicar alguns detalhes do texto acima? Ok, é melhor eu fazê-lo antes que alguém me mate!
Primeiramente, gostaria de que conhecessem Eri., ela é uma menina simpática e que, a primeira vista parece ridiculamente normal, no entanto, não se deixem enganar, ela é uma grande raiz de problemas. Eri vive pulando de relacionamento para outro, nunca tendo tido uma mãe presente e com o pai fadado a se remoer pelas dores de uma separação precoce. Ela se vê caracterizando, em cada recanto, a figura materna, para cada namorado sentia que ela seria para ele como a Senhora Narikawa fora para seu pai, fazendo-o sofrer mais conforme o tempo de sua presença aumentava, coisa que, ao seu ver, geraria um rompimento doloroso (rompimento este que, cedo ou tarde, fatalmente viria a cair sobre o casal). Então, a contragosto, ia levando namoricos aqui e ali, fincando cortes em seu orgulho e coração, até que, bom, até conhecer com um moço chamado David Waterhouse… E é por estes meios que começa a nossa história, com Eri terminando um namoro e contando ao rapaz britânico sobre seus confusos sentimentos. Bom, depois desta curta explicação sobre apenas a figura da menina Eri, gostaria apenas de explicar alguns termos do texto. Nele pus os nomes de duas árvores japonesas, a Ichou (Ginkgo biloba) e a Kiri (Paulownia tomentosa), ambas são bem conhecidas e de origem chinesa. No caso da Kiri há dois pequenos detalhes, um remete a um costume chinês sobre o qual li, em que, ao nascer uma menina, plantava-se esta árvore e, quando ela se casava, a pobrezinha era cortada; e o outro detalhe é sobre a fabricação do koto, um instrumento de cordas tradicional japonês (também importado do País do Centro), que é feito normalmente com a nobre madeira das Kiri. E, por fim, apenas um rápida tradução para quem se perdeu dentro do texto, Mokuhime traduz-se literalmente como Princesa Árvore para o Português.
Ai, ai, vou encerrando por aqui, pois este post acabou por ficar mais comprido e confuso do que eu esperava e queria (tanto que tive de correr durante os comentários finais, aposto que perceberam!)… Espero que tenham gostado e que aprovem as loucuras da Senhorita Eri.
Muito obrigada!, Paula Guerra; Passando mais uma vez no estranho Le Chats!

~ por meron65 em Julho 2, 2009.

Uma Resposta to “Capítulo Um, Mokuhime;”

  1. Cá estou eu outra vez! :D
    Li o post… Achei-o muito bem escrito, tecnicamente falando mesmo. Sem contar também que eu senti alguma coisa de… terna, ou algo assim, quando li a história. ^^
    Sei lá, uma sensação de suavidade, de calmaria… Acho que é algo que eu nunca saberei descrever. :)

    Portanto, excelente post, Paula-chan! :D
    Gostaria de ler os próximos capítulos. ^^

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