Capítulo Um, Mokuhime;

•Julho 2, 2009 • 1 Comentário

Eri se levantou repentinamente da cama, rolara sem paciência durante horas, tentara todas as formas possíveis de conseguir cerrar o sono sobre si mesma, mas tudo o que conseguira fora uma inconstante dor de cabeça. Ela puxou o cobertor junto e, arrastando-o no chão, caminhou rapidamente até o corredor da casa. As luzes todas estavam apagadas, desde a manhã daquele dia a energia acabara e Eri passara parte dele se revirando entre caixas velhas, procurando uma lanterna ou algum pacote de velas, achando, por fim, somente alguns cotocos de cera imundos, com o pavio quase sumindo dentro de si, além de uma vela de aniversário em formato de seis, “De quem poderá ter sido?”, ela se perguntou analisando-a calmamente, uma das mãos sobre o queixo e o olhar distante de sempre.
Eri pôs ambas as mãos na parede, tateando desconcertada, com o cobertor preso entre dois de seus dedos. Pôs o pé esquerdo no primeiro degrau da escada, a madeira rangeu vagarosamente, como se soltasse uma tristonha reclamação, pelo seu pescoço passou um leve arrepio e ela trincou os dentes, “muito cuidado, Eri”. No degrau que dividia a escada, deixando oito subindo e oito descendo, um ponto de luz tremulava iluminando o pedaço de caminho que seguia lentamente até uma das salas vazias do primeiro andar. Eri descera quatro degraus quando sentiu a leve curva que tinha de começar a fazer, nervosa, deu um passo em falso e ouviu o coração disparar, como se ela fosse cair naquele mesmo momento, e então, no impulso que levara da surpresa, seus pés engataram mais uma marcha e Eri engoliu os outros doze degraus em exagerada rapidez.
Ao colocar o pé esquerdo no piso da sala, seguido logo do direito, ainda na incerteza de seus passos, seu coração foi aos ares novamente, mas vendo que chegara sã e salva ela agradeceu profundamente, afinal, nunca tivera uma coordenação motora de total confiança. O chão gemeu como fizera toda a escada, a madeira daquela casa parecia estar completamente roída por dentro, mas ainda demonstrava certa firmeza, Eri virou-se para trás e viu que a vela do nono degrau apagara-se em sua correria.
“Droga, nunca mais vou conseguir acendê-la.”, ela disse, lembrando-se melancolicamente dos longos minutos que tirara tendo de pôr fogo em cada uma das velas que espalhara pela casa. Mas, por fim, deu de ombros, ela sabia muito bem que provavelmente passaria o resto da madrugada acordada, era uma garota de sorte insone.

Do lado de fora da casa, o som brando dos galhos das Ichou, as nogueiras-japonesas, enchia o ar, e levava a calma impressão de aquele vento e aquelas árvores serem uma única coisa, unidos por laços indiscerníveis. Tirando a franja despenteada dos olhos, Eri desceu para o genkan, seguiu o curto corredor de entrada dando as costas para seus calçados, juntos ao tapete de palha que tescia ares de recepção para a velha moradia, e então, deslizando um dos painéis da porta, deixou seu olhar recair sobre o abandonado quintal. Muitos pontos brilhantes, incertos, piscavam como lampadinhas de Natal no céu daquela noite, um vento frio passava e espalhava as últimas flores da árvore Kiri dos antigos moradores da casa. Eri pousou os dedos descalços sobre o chão de pedra que cortava caminho entre a grama alta, a friagem subiu pelo seu corpo, ela levantou o cobertor e o deixou cair sobre seus ombros, segurando-o com as duas mãos, encolhendo-se.
Ela olhou para aquela meiga Kiri, quando mais nova, na primeira vez que chegara aquela casa, ela deparara-se com suas largas folhas, mas a árvore ainda era tão fina que Eri sentira pena e receio dela torcer e ir ao chão com os castigantes ventos de inverno. Então, sempre que chegava a meados de Dezembro, ela, desde seus doze anos, corria até a casa, escondida de seus pais, e ia se certificar de que a princesa árvore ainda estava de pé. Os anos passaram-se, Eri cresceu, a árvore dobrou de tamanho, e nunca mais ela tivera a mesma preocupação, no entanto, pelo hábito, continuava indo, em cada mês de Dezembro, visitá-la.
Porém, naquela vez, ela fora mais cedo. Ainda era início de Junho, mas lá Eri já se esgueirava, caminhando pelas pedras polidas do quintal, indo até o tronco da árvore, sentando aos seus pés. Eri deixou o pescoço pender e encostou de leve a cabeça na árvore, ela olhou para cima e bisbilhotou as folhas que iam sacudindo-se, enquanto o vento brincava com os galhos, fazendo cócegas neles. “Ei, Moku-hime.”, ela abaixou a cabeça novamente, olhando para suas pernas finas largadas por debaixo do pano, coçando o nariz com uma das mãos. Eri ajeitou os cabelos, e mais uma vez lançou uma sombra, pelo canto de seus olhos, para a Kiri. “Você acha que eu vou acabar como a chinesinha que fez a plantarem?, e ela levemente suspirou. Será que eu vou mesmo acabar triste e sozinha como tantas vezes pareceram me dizer?”
E com uma gelada dor tomando conta de seu coração, enquanto, aos poucos, Eri percebia a loucura em seus sonhos e na dura realidade em que se encontrava, pousada sobre o chão gelado do quintal daquela casa abandonada. Ela chorou baixinho e encostou o ouvido no tronco da árvore, como se esperasse dela algum sinal, um leve uivo de esperança para Eri. A princesa árvore não respondeu, mas Eri continuou, ainda sim, aquele óbvio monólogo.
“Mokuhime, por que será que as coisas têm de ser assim? No que eu estava pensando quando falei aquilo para ele?, e por que eu resolvi abandonar o Tarou-kun? Eu disse tantas coisas sem sentido para ambos… ‘Ele não me entende, e é por isto que não quero continuar junto dele.’”, ela lembrou-se com vagar de suas palavras. Cerrou seus lábios e deixou aquele diálogo prosseguir dentro de sua mente: “E isto me assusta porque, se continuar a conviver com ele, estarei fadada a um dia ter de lhe explicar quem sou… Agora, você, Mizu-san, pela distância que nos finca, cada um em seu país,  nunca poderá me entender, mas, ainda sim, me entende… E é por isto, por conseguir me ver como sou sem eu precisar explicá-lo, que fiquei assim. Waterhouse-san, ah, anataga daisuki!”
Uma estrela cadente voou pelo céu, Eri rapidamente olhou para ela, assustada com sua repentina aparição. Há quanto tempo não via uma estrela daquelas percorrendo o monótono negrume que era o céu de sua cidade!
“Ainda sim… É verdade o que eu falei, mesmo que não seja fácil de absorver, mesmo assim. Eu gosto, realmente gosto…”, então, Eri passou a mão pelo rosto, secando as diversas lágrimas que haviam caído durante sua conversa com a Kiri. Ela virou seu rosto de lado e beijou de leve o tronco da árvore, viu um texugo correr entre os arbustos que separavam o quintal da floresta que o envolvia, o rosto entremeado entre preto, branco e cinza se fincou na mente de Eri, dentro de seus olhos.
“Escuta, é verdade o que eu disse a ele, tá? Pelo menos é o que estou ouvindo daqui de dentro de mim… E eu prometo, uma promessa de fundo de caixão, que, se eu conseguir alcançá-lo de alguma forma, qualquer uma, se eu conseguir amá-lo, se ele conseguir me entender sem me perguntar porquês a toda hora, como todos me fazem, prometo que nunquinha tornarei a tocar uma corda de um koto!”, seus lábios ainda encostavam-se no tronco da Kiri, as palavras gravaram-se em sua madeira. Viu mais uma vez passarem em correria a estrela e o texugo em sua memória, seria o sinal de algo?

~

Kon ban wa! Estranhamente, hoje começo direto com um pedaço de história. Há dias seguidos venho tentando escrever algo que me soe bem, sem o menor sucesso, rascunhos de diversos textos desceram pelas minhas mãos, mas todos foram desaprovados, amaçados e jogados longe. Passei ainda algumas noites em claro escrevendo pequenas bobagens que, sinto muito, um caro leitor teve de se dispor a ver (eu realmente sinto por você, aquele texto estava um tanto “fumado”). Dava-me sempre por vencida, acabava retomando meus clichês, e apenas quando a noite invadia minha casa parecia que surgia a vontade sincera, e despida de qualquer preceito tolo, de escrever um parágrafo que fosse.
Por muitos dias passei apenas pesquisando sobre diversas localidades, descobri ilhas, terrenos italianos, recantos alemães do qual nunca ouvira falar, mas o problema era que o enredo não se desenvolvia da maneira que queria. Até então, apenas três dos personagens que criei nos últimos meses me chamaram real atenção:  Miyahara Rie, um de meus rascunhos, um rapaz de cabelos compridos e mania constante de colocá-los atrás das orelhas (apesar de ficar indiscutivelmente mais bonito com eles caídos sobre o rosto, coisa que me faz o jeito); Yumi Seishi, um moleque tímido e azarado, que tivera a infelicidade de ter o seu último desenho arruinado por um acontecimento de quê desconhecido (nunca use pedras esquisitas, achadas dentro de pergaminhos do arco-da-velha, para servir como peso de papel); e a pessoa acima, uma menina, também de vinda dos recantos do Círculo do Fogo do Pacífico, chamada Narikawa Eri, que, na verdade, não é bem uma menina, mas já uma jovem de dezenove anos. Entretanto, nenhuma das histórias dos outros dois personagens se desenvolveu tão bem quanto esta (a de Rie soava mais como um conto após goles de bebidas, contada por alguém vermelho como um pimentão, e a de Seishi vai ficar para virar mangá, se assim os senhores quiserem), e é por isto que resolvi colocá-la aqui, quebrando a greve de textos estranhos e de aparições desconcertantes minhas.
Então, o que acham de eu explicar alguns detalhes do texto acima? Ok, é melhor eu fazê-lo antes que alguém me mate!
Primeiramente, gostaria de que conhecessem Eri., ela é uma menina simpática e que, a primeira vista parece ridiculamente normal, no entanto, não se deixem enganar, ela é uma grande raiz de problemas. Eri vive pulando de relacionamento para outro, nunca tendo tido uma mãe presente e com o pai fadado a se remoer pelas dores de uma separação precoce. Ela se vê caracterizando, em cada recanto, a figura materna, para cada namorado sentia que ela seria para ele como a Senhora Narikawa fora para seu pai, fazendo-o sofrer mais conforme o tempo de sua presença aumentava, coisa que, ao seu ver, geraria um rompimento doloroso (rompimento este que, cedo ou tarde, fatalmente viria a cair sobre o casal). Então, a contragosto, ia levando namoricos aqui e ali, fincando cortes em seu orgulho e coração, até que, bom, até conhecer com um moço chamado David Waterhouse… E é por estes meios que começa a nossa história, com Eri terminando um namoro e contando ao rapaz britânico sobre seus confusos sentimentos. Bom, depois desta curta explicação sobre apenas a figura da menina Eri, gostaria apenas de explicar alguns termos do texto. Nele pus os nomes de duas árvores japonesas, a Ichou (Ginkgo biloba) e a Kiri (Paulownia tomentosa), ambas são bem conhecidas e de origem chinesa. No caso da Kiri há dois pequenos detalhes, um remete a um costume chinês sobre o qual li, em que, ao nascer uma menina, plantava-se esta árvore e, quando ela se casava, a pobrezinha era cortada; e o outro detalhe é sobre a fabricação do koto, um instrumento de cordas tradicional japonês (também importado do País do Centro), que é feito normalmente com a nobre madeira das Kiri. E, por fim, apenas um rápida tradução para quem se perdeu dentro do texto, Mokuhime traduz-se literalmente como Princesa Árvore para o Português.
Ai, ai, vou encerrando por aqui, pois este post acabou por ficar mais comprido e confuso do que eu esperava e queria (tanto que tive de correr durante os comentários finais, aposto que perceberam!)… Espero que tenham gostado e que aprovem as loucuras da Senhorita Eri.
Muito obrigada!, Paula Guerra; Passando mais uma vez no estranho Le Chats!

あの冬へ ~ Para aquele inverno;

•Junho 4, 2009 • 2 Comentários

Deitada sobre minha estilizada versão de futon, o enorme colchão de meus pais que, por motivos técnicos (estar o Seu Manuel a pintar o quarto deles), encontra-se esparramado pela sala; bem, venho hoje escrever-lhes algo. E o que seria? Estranhamente, por não ser de meu costume, escrever sobre alguns engraçados acontecimentos deste mesmo dia.

Hoje acordei sem pressa, afinal acordei com um espaçoso tempo para fazer o que faço de manhã, levantei-me e pus a me arrumar; não sei dizer se felizmente ou infelizmente, deparei-me mais uma vez com meu rosto e meu corpo parados diante do espelho do quarto de minha irmã, enfiei-me melancolicamente na roupa do colégio e saí de lá para ir terminar as outras chatas tarefas de quando se acorda, escovar os dentes, pôr a lente, enfiar meias nos pés e coisas assim. Diferente da normalidade do Rio de Janeiro, mas dentro da que temos estado, nos dias que se passam, hoje amanheceu violentamente frio, tão frio que me pus até a procurar um outro casaco para colocar por cima do que eu já vestia. Desci as escadas que nem um pingüim, passos os mais contidos possíveis para não dar ao ambiente um pouco que fosse de minha energia, e corri para a cozinha a fim de tomar meu café da manhã. Como sempre, na dieta, dou um miado de tristeza sentada na cadeira da cozinha, sim, naquele momento sinto o quão infelizmente foi rever-me parada diante do espelho hoje, e sigo com um suspiro. Mas, suspirosa ou não, eu sigo, e vou porta a fora, dando um silencioso adeus e “bom dia” para meus pais, deitados no colchão da sala.
A ladeira é a mesma de sempre, mas hoje pareceu-me bem mais cruel graças aos ventos gelados, mas nada uivantes (para a minha sorte pois, se assim fosse, sinto que começaria a ver Cathy por todos os cantos, famosa de Wuthering Heights), que corriam-lhe soltos. Chegando a escola, as mesmas aulas de sempre, ou melhor, de quase sempre, pois logo de cara tivemos uma troca da aula de inglês por um longo discurso explicativo de nosso coordenador sobre o Enem e sobre o grande pacotão de aulas que deixaram a nossa disposição, e também porque hoje tivemos uma aula do professor Charles, e, como bem sei, nenhuma aula dele é igual a outra, sabe Deus, ou ele mesmo!, por que motivo tenho esta impressão.
Voltei para casa, e enfiei me dentro de outro livro, mas este bem mais empoeirado do que o anterior. O Nome da Rosa é de agradável leitura, apesar das presunçosas explanações do autor sobre a abadia, que, se não fossem pelo desenho na página anterior, deixariam o leitor bem na mesma; porém, o que me vem a incomodar mesmo neste livro é a versão velhíssima que tive de pegar para ler, uma que cheira a poeira e me faz espirrar de cinco em cinco minutos enquanto leio, coisa que pode parecer frescura minha, mas que é realmente incômoda. Depois disto, tecnicamente, era para eu ir estudar ou qualquer outra coisa que preste, mas acabei por resolver ficar sob o sol. Fui até a porta da cozinha e ali me sentei, lagartixando que nem um gato preguiçoso; nada de muito interessante ocorria no quintal até eu ouvir uma saraivada de latidos, olhei para de onde ouvia e lá vinham elas, as três cadelas, numa caça alucinada atrás da Cocota, nossa novíssima galinha de estimação. Evidentemente, caí na gargalhada enquanto as observava, Cocota ganhava em disparada da Ovelha, da Emo e da Xitãozinho (os apelidos carinhosamente dados por um amigo meu à Mel, Branquinha e Pretinha, respectivamente). Levantei-me da pequena escada sob a porta da cozinha envolta ainda pelos latidos e gritos da bicharada, e, na animação, saí de lá imitando Cocó enquanto vinha em direção à sala.

E cá estou eu, enfiada debaixo da coberta de meu “futon”; ainda subi algumas vezes para chamar minha mãe, que descansa em seu quarto, em nome do compromisso dela, e também preparei-lhe um café com leite. No entanto, no geral, passei este finzinho de tarde no empreendimento de escrever este texto. Ouço melodias de um majestoso piano, o do Hisaishi-san, coisa que tenho feito com freqüência, pois com mais força que muitos instrumentos este tal piano tem me feito feliz e infeliz.
Sorrio para a janela e sinto, pela diminuição da claridade, o sol indo embora; beijo minha mão esquerda e espero pelo próximo segundo, bem como não sabe Eri-san, eu não sei o que me espera no próximo momento. Ah, um momento!, minha mãe me chama, e lá vou eu. Corro.

~
P.S.: o título deste post, “Ano Fuyu He” (pronunciando-se a consoante he como uma vogal, ‘e’), vem de uma das composições do pianista e maestro Joe Hisaishi, chamada Ano Natsu He (“Para Aquele Verão”). É uma música belíssima, eu indico, bem do fundilho de meus bolsos, meu coração.

“[...] Gathered deep”;

•Maio 22, 2009 • 1 Comentário

Acordei às duas e meia da manhã. E não mais consegui dormir. Os minutos foram passando tão rapidamente que, por um momento, não dei conta a seus acenos de despedida. E, quando notei, nem senti que eles haviam realmente ido embora. Como a triste ida de um amigo que passou semanas em sua casa, como o abandono de um amante. É, meu tempo passou e eu nem percebi, enquanto estava acelerada, com a cabeça em algo mais.
Acordei às duas e meia da manhã. E pensei por longos minutos se deveria me esforçar para voltar a dormir. Mas não conseguia, meu coração batia tão rapidamente, e eu sentia medo, um estranho medo de nada concreto. Não era como o receio de algo atrás de você, e nem como o medo da morte. Simplesmente, não era medo de nada, mas eu o senti, o senti como gostaria de ter sentido meus minutos passarem.
Então, dei de ombros. Não me importo mais de não ver o tempo escorrer ou não, e menos ainda me importo em descobrir o que é aquilo que se acoberta por debaixo do pânico desmedido que sinto. Aproveito minha ilusão e tomo um barco na costa de uma cidadezinha norueguesa.
~

Olhando ao meu redor, apenas um grande e deserto mar. Não havia mais nada e nem mais ninguém naquele um quilômetro e meio que me separava do corpo de Uthaug, cidade onde eu havia resolvido, inesperadamente, passar alguns dias. Pretendia, a princípio, ao começar minha estranha jornada, depois de Londres passar por Paris, visitar o Louvre o quão antes; no entanto, ao reconhecer numa revista de viagem aquele absurdo farol norueguês, com o qual me deparara ainda pequenina, navegando pela internet, percebi, olhando fixamente para sua foto na revista entre minhas mãos, que era estritamente necessário ir até lá naquele mesmo momento. E assim o fiz; pegando a mochila que estava ao meu lado, no chão do jornaleiro, paguei ao atendente uma pequena fortuna pela revista, e dali dei o fora, cambaleando até os balcões do aeroporto Gatwick
-Paris, não é? – meu amigo perguntou-me. Olhei para ele e sacudi a cabeça em negativa, dando-lhe um sorriso. Ele levantou uma de suas sobrancelhas.
-Aqui, dê uma olhada. – disse, empurrando-lhe a foto do farol.
Ele deu um pulo para trás ao ler a legenda.
-Um farol na Noruega? Você quer ir para aí?!
Eu sorri da forma mais doce que pude, na tentativa de dissuadi-lo.
-Onegaai. – disse olhando para ele, bem em seus olhos, como dificilmente fazia, com as mãos na frente do rosto, enlaçadas uma na outra como em uma prece.
-É na Noruega, nem e e nem você sabemos uma única palavra de noruguês…! Olha… Ah, desisto de resistir! – e ele finalmente caiu na minha manha, puxando-me e me dando um abraço apertado.

-Obrigada! Obrigada!, eu ainda agradecia repetidas vezes a meu amigo, já dentro do avião da Norwegian Airlines.
Ele suspirava a todo o tempo, e quando eu via bem estampada em seu rosto aquela digna preocupação de amador a viajante, o puxava para perto e dizia que daria tudo bem, dando-lhe um beijo e um longo sorriso.
Dentro do avião, peguei meu discman e meu porta cds, puxei de dentro dele um dos meus antigos. O álbum Photos of Ghosts daquela já morta banda, Premiata Forneria Marconi. Coloquei rapidamente para tocar e passei para meu amigo um dos fones, ele o pôs no ouvido e logo reconheceu a primeira canção.
-Não me lembro do nome, mas você já me mostrou esta música, não é mesmo? É do Ma… Premia… Ah, não lembro qual a banda! – ele desistiu, bufando e recostando-se contra a poltrona.
Apenas por maldade, deixei-o pensar por ainda mais alguns segundos, e quando a voz de Franco Mussida chegou na primeira frase da letra, “Rain was your birth…”, eu resolvi acabar logo com o suspense:
-É o Premiata Forneria Marconi, River of Life, a música, lembra?
-Ah, é, isto mesmo!, ele bateu com a mão na perna e balançou a cabeça. – Nossa, mas isto é bem velhinho! Por que resolveu ouvir?
Naquele momento, eu mesma me surpreendi. Como havia me lembrado daquilo? Eu virei o rosto para janela do avião, observei as nuvens acinzentadas do céu inglês passarem lentamente.
-Quando era pequena – comecei, ainda com o olhar colado no através da janela. – Pequena não, mas ainda era uma garotinha, bom, eu pensei comigo mesma que, se um dia eu chegasse a conseguir ir até Norway, eu gostaria de ir ouvindo Premiata pelo caminho… – voltei-me novamente para ele. – Lembro que sempre que via escrito na minha pasta do Photos of Ghosts, este álbum, “Old Rain”, que é a música quatro, eu via, sem querer, “Ørland”. É um motivo idiota, mas eu fiquei com isto na cabeça!
Meu amigo apenas riu, completando: – Só mesmo esta pequena para pensar em algo assim!
~ Fim da parte um;

Bom, eu acabei demorando mais que imaginava para escrever este texto tão curtinho! É que tive de ficar pesquisando muitas informações sobre a Noruega, mas tudo bem. Espero que tenham gostado o suficiente para esperar pela próxima parte que, prentendo, virá mesmo no próximo post. Não vou poder terminar ainda hoje porque já são cinco e vinte da manhã e tenho de estudar., além do que, preciso ainda pesquisar mais sobre a Noruega, especialmente sobre Fosen, distrito mais ou menos a noroeste onde se localiza Ørland (um de seus vários municípios). Então, um bom dia para os senhores, e até a próxima!

FRANCO MUSSIDAR

O advento do Sol;

•Maio 18, 2009 • 3 Comentários

“Deixemos a luz do sol iluminar, caiamos no quintal e aqueçamo-nos ao sol.”
Sabe, tenho pensado muito em, como tenho me sentido um pouco mais alegre, em criar uma história voltada para uma pessoa com momentos um tanto mais divertidos do que os que venho escrevendo. Para tanto, resolvi criar a história de meu feliz amigo Edward Halberstam, que, apesar do nome estranho, é uma pessoa estranhemente normal (normal, é claro, se levarmos em conta as circunstâncias que o cercam). É claro que este trata-se apenas de um rascunho de história, uma mais animada e, logo, do tipo que estou mais desacostumada a criar. Como podem vir a perceber, este primeiro trecho é, ainda, um tanto quanto lento, mas espero tirar as mãos do freio da bicicleta de Halberstam e deixá-lo rodar solto.
Em todo caso, espero que apreciem. See ya!

~

O despertador tocou, estiquei meu braço, apertei o botão para desligá-lo e tornei a virar-me para o outro lado da cama. As cobertas estavam quentes e eu podia ouvir a respiração de Sun deitado ao meu lado, enrolado em seu próprio corpo, macio e morninho, com o rosto enfiado entre as patas. Repentinamente a porta abriu-se com grande rapidez. Entrou no quarto o Sr. Browne, ele acendeu a luz, foi até minha cama e religou o despertador, logo em seguida puxando-me a coberta. No mesmo momento, dei um pulo e fiquei de pé, o Sr. Browne nem deu atenção a mim e nem retribuiu meu aceno com a cabeça, apenas virou as costas para mim e saiu com a mesma rapidez com a qual entrara.
Ao ver a porta se fechando, tornei a sentar-me na cama, dando um suspiro de alívio. Olhei para o criado-mudo onde estava o despertador, remexendo-se enlouquecidamente, havia agora também um pedaço de papel. Franzi o cenho, o Sr. Browne havia o posto ali? Aproximei-me do criado-mudo, desliguei o despertador pela segunda vez, e peguei aquele misterioso pedaço de papel. Era algo impecável, passei os olhos na folha, alguns poucos parágrafos escritos com uma bela letra cursiva e, abaixo deles, uma assinatura corrida: Martim Browne. Imediatamente me pus a lê-los.

Caro Halberstam,
Como lhe disse ontem, durante nossa conversa, desejo ajudá-lo da maneira que me parece a mais coerente. Portanto, imagino que a primeira coisa a fazer seria deixá-lo à vontade nesta casa, pois creio ser um tanto quanto estranho mudar-se repentinamente para a casa de outra pessoa, especialmente para a casa de um homem como eu. Então, irei permitir que se acostume com o andamento do dia-a-dia daqui a partir de então, passando-lhe ordenadamente minha rotina e meus pedidos, ou melhor dizendo, minhas regras:
Primeiramente, acordo sempre às quatro e meia da manhã, portanto acho pertinente também fazê-lo; levanto-me, preparo-me calmamente e, às cinco horas, tomo meu desjejum. Normalmente apenas tomo leite e chá, nunca há pão de manhã e muito menos queijo ou coisas do tipo, tenho um metabolismo lento e, avisando logo, como muito pouco; apreciaria que fizesse o mesmo que eu, seguindo meus horários de refeições e partilhando-as à mesa em minha companhia. Logo em seguida, saio para uma longa caminhada, de forma que só retorno a casa em torno de nove horas, horário no qual, creio, você já estará em sua escola (ah, sim, matriculei-o numa escola aqui pelas redondezas). No entanto, neste meio tempo, enquanto eu caminho, você terá uma tarefa para cumprir: pedi para um amigo meu contratá-lo em seu grupo editorial, o da editora Menlo, logo, terá de, às cinco e meia, sair para entregar alguns jornais e revistas na vizinhança; não se trata de um trabalho puxado e é muito bem pago, de forma que poderá utilizar o dinheiro que tiver para comprar o que bem desejar, até mesmo pão e queijo, se quiser, para o seu café da manhã.
Ao chegar de sua escola, estarei provavelmente treinando piano e canto, o que deve vir a ser por volta de uma hora, não é mesmo? Então, almoçaremos em algum restaurante das redondezas (pois eu, sinceramente, não tenho nenhum prazer em cozinhar e nem conheço alguém que o faça em casa de maneira razoável) e depois retornamos. Gostaria de poder, é claro, passar minha tarde trabalhando nos artigos que faço para a editora Menlo, bem como nas ilustrações para outras editoras, então vejo como conveniente você estudar neste horário; três horas lhe são o suficiente? Espero que sejam. Ah, sim, e quanto ao seu estudo, gostaria de avisar-lhe que estarei ciente de suas notas durante o ano, e também de lhe dizer que não me importo em ajudá-lo em qualquer matéria.
Depois disto, tem o fim de tarde e o início da noite livres para fazer o que quiser (inclusive se quiser praticar algum esporte, que eu mesmo me disponho a pagar a mensalidade, ou até mesmo ter algumas aulas de piano comigo), mas de forma que chegue às oito e meia e esteja de banho tomado às nove para podermos cear.
Bom, no geral, esta é minha rotina de segunda à sexta, creio que, sendo ainda segunda, não seja necessária a explanação do fim de semana, por ora. Os demais detalhes, imagino que os pegue com o passar dos dias. Aviso-o que sou extremamente pontual, e também que seu trabalho começa hoje mesmo e, como deve ter já perdido algum tempo lendo esta carta, é melhor apressar-se.
Um bom dia,
Martim Browne.

Ao terminar de ler sua carta, eu estava espantado. Espantado com todos os trejeitos do Sr. Browne, sua maneira direta, seu dia-a-dia regrado, ambas as coisas eram simplesmente inesperadas e raras no mundo agitado e deturpado em que parecíamos viver. Além do que, apenas naquele momento eu parecia começar a ter noção do que se passava comigo; a perda de minha mãe, a ida para a casa de um antigo amigo de meu pai, além do que, por que aquele homem queria “ajudar-me”? E como iria me ajudar, metendo-me em sua rotina e esperando que eu me acostumasse com aquilo? Empurrado de um lado para o outro, assim eu me sentia enquanto levantava da cama e corria, após checar as horas no meu antigo despertador. Quinze para as cinco.
Fim da parte um;

Tintom, meu passado e futuro?;

•Maio 15, 2009 • 1 Comentário

cats1

Andando por um comprido corredor, não há motivos para eu estar por ali. Mas apenas sigo em frente, não há o que fazer, às minhas costas, ainda o mesmo cenário de caminho interminável. Paredes tão altas me guiavam para frente, altas e cobertas por grandes pedaços de pano, eram todas de madeira, aqui e ali grandes buracos espiavam para fora do corredor, no entanto, graças ao tecido, eu não podia também espiar. A estranha solidão acompanhava meu caminho, por algum motivo aqueles que haviam me acompanhado até este cenário tinham fugido tão rápido, livraram-se de mim ou eu deles? Não importava, eu me sentia só, apenas isto, lembrava-me seqüencialmente daqueles que já haviam me abraçado, pedia-lhes por um conforto, mas estavam longe e eu não gostaria de incomodá-los, oh não.
De repente, o som tilintante de um guizo cruzou o ar, virei-me para trás e deparei-me com uma estranha companhia. Tom, meu gato de quando tinha apenas onze anos, esgueirava-se através de um dos buracos da parede, passando por debaixo de um longo pedaço de tecido, esforçando-se para alcançar-me e, ao mesmo tempo, encarando a mim com grande curiosidade. Olhei para ele demoradamente. “Tom, Tom! Tintom!”, pensei tão alto que tive a estranha sensação de meu pensamento sair e ecoar por aquele oco corredor. Ajoelhei-me e fiz um sinal para ele se aproximar de mim, ele deu alguns passos e, levemente, junto de mim, arrastou uma de suas faces em minha perna. A vontade de chorar diante daquele incrível reencontro foi avassaladora, no entanto, mordendo os lábios, disse a mim mesma para não fazê-lo, “pois minha fraqueza já foi longe demais”. Serenamente acariciei sua cabeça, beijei sua testa; ele então tomou a dianteira, como pedindo para eu continuar a caminhar; levantei-me e o segui.
Tom caminhava junto da parede à minha direita, vez por outra lançava um de seus sábios olhares a mim, não miava, como nunca miou em minha infância; como poderia ser um gato assim tão humano? Sorri agradecida, seja o que houvesse ao final daquele canhestro corredor, íamos juntos, munidos de incontáveis lembranças já esquecidas. Mas, então, mais uma vez o guizo de sua coleira uivou. Puxado por estranhas mãos, vindas do outro lado da parede, Tom desapareceu por debaixo do pano; eu assisti atônita à cena daquele par de braços roubando-o. Quando recuperei a calma, corri para onde ele tinha sumido, agachei-me e levantei o pano, procurando pelo que havia ocorrido. Novamente, as mãos surgiram, empurraram-me para trás e abaixaram o pano; eu dei um salto e sacudi a cabeça, eu reconhecia, de algum lugar, aqueles dedos tortos.
Um miado me acordou do susto, outro gato surgia de outra parte da parede, era Frajola, o antigo arisco da casa. Ele correu para junto de mim, mas quando passou por um outro buraco da parede de madeira, mais uma vez a mão assaltou-me e puxou-o para o outro lado do corredor. Assustada, corri até lá para tentar resgatá-lo, mas quanto mais os meus antigos gatos chamavam por mim, com as cabeças atravessando pequenos espaços para o corredor e olhares esguios mirando-me, mais vezes os braços surgiam e pegavam-nos devolta. Eu estava deitada junto ao chão, arrastando-me de um lado ao outro, procurando e jogando os nomes de meus gatos ao ar. “Tom! Frajola? Milk? Deede!”, muitos nomes, muitos gatos.
E, então, correndo em minha direção, ele chegou e pulou sobre minha perna. Charlie mordeu meu calcanhar, acordando-me daquela procura insana. Ele vinha da extensão de corredor oposta a que antes eu seguia, não da parede. Amedrontada, peguei-o no colo rapidamente, levantando do chão, segurei-o com força e pedi para que não fosse dali embora. Como eu esperava, elas surgiram para tentar puxar Charlie também, então, com a mão que deixara livre, sem pensar, agarrei um de seus pulsos. Puxei-o com tanta força e apertando de maneira tão firme que a garota do outro lado soltou um arquejo de dor; deixei Charlie, que assustado se rebolava em meu colo, ir para o chão e então peguei o pulso também com minha mão esquerda. Puxava-o.
“Solte-me!”, ela berrou, “Me dê meu Charlie, ele é meu, é meu!”.
Ao ouvir aquela voz, cai para trás. Assutada, cambaleei e olhei na direção dela. Charlie, que entendia o que acontecia, encostava-se contra a parede oposta, fugindo das mãos. Cheia de terror, mas novamente decidida, levantei parte do tecido onde um grande pedaço de madeira havia caído, cedendo espaço para enxergar do outro lado. Tive receio de a garota tentar puxar-me, mas ela não estava mais junto da parede. Adentrei meu olhar mais para dentro, ao lado daquele corredor se extendia uma grande e vazia sala, lembrando-me um galpão, cacei sua presença e a encontrei sentada num canto, choramingando tristemente, pedindo por ele, “Charlie… Me devolva ele! Devolva todos os meus gatos, devolva!”.
E assisti a mim mesma, ela acariciava seu pulso machucado, eu acariciava o braço que havia puxado anos atrás. Reconheci seus cabelos de pontas desbotadas, os olhos afundados de uma tristeza que nunca achei que eu poderia vir a sentir, os lábios machucados pelas minhas manias; aquela garota, suas mãos nervosas, ela era eu envelhecida, mas ainda com minha mesma idade. Ela levantou o olhar para mim e desatou em um doloroso pranto, apontou para mim e, entre soluços, disse-me “Você! Você roubou a minha vida, acabou com seu futuro!”. Recuei um passo, mas ainda mantendo meus olhos chocados postos sobre sua face, vagarosamente lágrimas vermelhas, ensagüentadas, correram sobre seu rosto, manchando seus olhos.
“Agora me devolva-o!”, no mesmo momento, larguei o pedaço de pano, peguei Charlie que ainda estava encostado contra a parede oposta, e corri enlouquecidamente.
~
Sinceramente, não sei se cheguei a alcançar o final do tal corredor, mas sei que durante todo momento final deste sonho não larguei meu querido gatinho. Vi este sonho hoje mesmo, acordei ligeiramente deslocada, além de ter sido bem enervante, não lembrava-me de várias lacunas do sonho. Mas achei-o interessante, de forma que me dispus a costurar os espaços vazios uns nos outros. Espero que tenham gostado! É engraçado como a mente da gente às vezes cria e nos transmite estranhas lições!, bom, mas sinto muita tristeza por aquela Paula, aquela que, graças a meus coisudos, tenho a felicidade em saber que não irei me tornar.

A Carta da Personagem da Autora;

•Maio 7, 2009 • 3 Comentários

Nossa. Como sempre, a Paula tem uma péssima tendência à insinceridade, e sim, esta palavra existe.
E, como sempre, a Paula tem uma tola tendência a neologismos, no entanto, eu não sou bem assim.
Sim, sou eu, Nee-chan. Muito prazer.
Fui mandada até aqui para completar um serviço, o de explicar-lhes sinceramente o que vem ocorrendo e deturpando a mente desta menina Paula.
Pode parecer tolice, mas, vejam bem, ela crê como necessário; e sendo eu uma mera sombra, tenho apenas de obedecer de forma submissa aos movimentos do corpo real, mas não cegamente, pois tenho meus olhos e, por hoje, tenho duas mãos para falar algumas coisas.
Ora, sim, ela me permitiu fazer isto. Não estou mentindo, como eu poderia ter roubado-lhe a consciência? É algo impossível de se fazer, creio eu.
Então, vamos aos poucos, o que vem ocorrendo?

Paula tem tido uma estranha barreira para escrever, não que nunca houvesse ocorrido de ela não estar disposta a escrever. De acordo com ela mesma, ela nunca está disposta a escrever, nasceu para isto e só serve para isto. “Mas nem para escrever eu sirvo ou nasci”. Diz ela que suas palavras são forçadas, desconectadas, e a única coisa que a salva é destas mesmas palavras não se rebelarem contra a sua vontade. Palavras não se rebelam. Agora, pensamentos sim.
E seus pensamentos têm andado mais distantes do que nunca, sabe lá onde. Ela diz que foram beber água, e reza para que voltem logo. E é disto que trata a sua barreira para escrever, em parte, Paula não vem conseguido organizar pensamentos reais o suficiente para se fixarem neste mundo. Ela tenta frustradamente, escreve-os em folhas digitais, mas logo eles evaporam e retornam aos Céus, “de onde nunca deveriam ter saído”. Não são sagrados por terem vindo do céu, são apenas inúteis à sociedade, como tudo que de lá procede, creio eu.
Mas o real problema é que sua vontade de escrever deu um salto nestes três dias que vêm passando para o passado, a vontade, o desejo de agitar os dedos e levantar a poeira do teclado vem à tona empurrando todas as suas necessidades. Mas ela não se concretiza em boas idéias, apenas em pedras, que tornam a afundar no profundo mar roxo.
Por isto, insatisfeita, ela quer ao menos passar um trecho de um texto que escreveu recentemente, tentando abafar tudo isto que relatei. Tornando em todo desnecessária a minha vinda até aqui, maldita garota, só me dá trabalho.

Então, trago uma pequena folha. Ela amou este texto com todo seu coração ao escrevê-lo, escrevendo-o para si mesma, com idéias germinando por todas as partes, um sorriso de lado a lado de suas bochechas pela facilidade com que relatava a bela paisagem sueca de seu enredo, sorriso este alquebrado por lágrimas de linha, que escorriam retas por sua face, vindas da tristeza pela qual o próprio narrador narra e que ele mesmo planta. “Mas não se deixem levar pelas minhas próprias frases, pois posso ter amado este texto, porém nada garante que ele valha a pena. Sou uma inútil amante da Literatura, guiada por ela para algum lugar tão inútil quanto meu desejo de escrever para ninguém. E não tenho a capacidade de criar algo decente à sua sociedade, meus amigos. Ainda sim, muito obrigada por lerem tudo até então.”
E ela suspira ao meu lado, enquanto eu copilo estas palavras. “Maldito texto”, ela disse baixinho, pedindo logo em seguida para apagar estas duas palavras. Crê que podem achá-la exagerada, demasiada dramática, quando diz não gostar dos parágrafos acima. Ela me perdoa pelo péssimo trabalho, só não perdoa a si mesma.
De qualquer forma, cá estamos, com A Carta Desinformante:

Há aproximadamente mil e cem dias está o dia em que resolvemos, taciturnamente, irmos embora, quando aceitamos nosso destino e nossos humilhantes lugares no mundo. Lugares como dois covardes. Mil e cem dias que pareceram uma dura e comprida eternidade. Pergunto-me como será que você vem passando, se pulou calmamente as pedras que jogamos em nossos caminhos ou se nelas caiu; se deseja saber (imagino que não, mas lhe direi assim mesmo), de minha parte sentei-me no meio da estrada e esperei para ver se as pedras saiam de lá por conta própria, eu queria observá-las ali caídas.

E hoje observo também a neve, caindo pela janela da cozinha, enquanto vou riscando mais um dia no calendário de minha vida. Quanto tempo mais ainda tenho para viver? Eu daria uns dois anos, mas não tenho certeza se este termo não cairá para um ou um ano e meio, pois meu prazo de validade vem diminuindo daquele dia, há mil e cem atrás, quando comecei a apodrecer lentamente.

Minhas unhas estão roxas, minha pele, alva como o pêlo dos carneiros que rodeiam minha propriedade, e meus lábios tremem de frio, mas, enquanto a neve cai, enquanto tudo cai, nesse tempo estranho e deformado, que passa como se fosse demorar muito, mas, ao se olhar para trás, vê o quanto correu, enquanto isto, não me dou ao trabalho de me cobrir, vestir um casaco, pôr luvas ou tomar algo quente. O calor só aceleraria o processo de decomposição, deixo que o frio me conserve por mais.

Quanta morbidez, meu amor. E quanta enfermidade.

Não acredito que deveria estar-lhe enviando tantas palavras tristes, mas imagino que lhe contar as novidades seria muito menos bem-vindo, creio que você amassaria com horror cartas em que eu dissesse que me sinto bem e que sua existência já se apagou completamente por aqui, queimada pelo sol quente do verão, castigada pelos ventos outonais, enterrada na camada de neve que vai crescendo, aos poucos barrando a porta de minha casa imprudentemente. No entanto, nunca me imagino esquecendo-me assim, pois você não se esvai tão facilmente, você me é como uma rocha, firme e forte em minha memória, e como uma pedra, que posso guardar em meu bolso e levar melancolicamente para todo o lugar a que vou. E é muito importante, para mim, ser nestas formas.

Porém, como deve imaginar, as novidades não são boas, nunca o são, então acredito que mandá-las é preferível a ficar revirando o passado. Nos setecentos e oitenta e nove dias que vimos passar desde que me mudei para o interior, vim trabalhando como desenhista para todo o tipo de coisa; recebo pedidos pelo computador, cartas ou telefonemas, faço qualquer desenho que me for pedido, e envio o resultado de volta. Algumas vezes tenho de ir até outras cidades, em poucos destes casos encontro-me com o patrão da vez e discutimos sobre a encomenda, em outros, a grande maioria, apenas entrego a ele o desenho e recebo meu pagamento. Não posso negar que gosto de meu trabalho, mas por vezes é muito estressante e difícil conseguir chegar ao desenho que quero, passo dias parados procurando por uma inspiração, ou simplesmente uma boa idéia, e depois, noites em claro para terminar no prazo, ou então, simplesmente, copio roboticamente o que me foi sugerido. E por causa deste tipo de emprego, posso dizer que não tenho o que eu chamaria de rotina, esta é uma das únicas coisas que me deprime em ser desenhista, tenho muito receio de estar dissolvendo meu corpo num mar de desregramento.

Aqui perto de minha casa há apenas quatro outras casas, todas bem espaçadas uma das outras, e também há uma fazenda, propriedade de um destes meus vizinhos, onde há uma grande, alegre e recheada de balidos criação de ovelhas. Parte do pasto destas minhas amigas felpudas fica logo próximo a minha casa, subindo uma pequena ladeira de terra, pedras e grama mal aparada; quando é dia de levar as ovelhas para pastar nesta parte do terreno, posso ouvir seus balidos de dia até de noite, e vez por outra gosto de ir até lá observá-las, calminhas, olhando ao longe, como se tudo fosse apenas distância. E como o olhar delas, o meu se perde, procurando ver o que não sei onde está.

Levantei os olhos da carta, peguei minha xícara de chá quente sobre a mesa a minha frente e tomei um gole. Olhei para Ewen, com um sorriso de bochecha a bochecha.

-É realmente assim que me vê? – perguntei, rindo.

Ela coçou o ouvido inúmeras vezes, pensativa.

-Bom., começou. Nas dezessete vezes em que perguntei a você sobre sua história e sobre o motivo de estar aqui, neste fim de mundo, você se negou a responder, então só consigo imaginar que seja por algum caso de amor inacabado, ou porque você matou algum marmanjo, mas não acho que você seja capaz de fazer isto… É, não acho.

Levantei uma das sobrancelhas. – Então está me chamando de covarde, ora?

-Não, não. Só não sei se teria força suficiente para matar alguém!

-De fraco então, não é? Que garota mais enxerida e prepotente! – continuei, ainda com um sorriso no rosto.

Ambos ríamos de maneira trivial. Entreguei a folha de minha falsa carta à Ewen, ela recolheu, e depois lançou outro olhar ansioso para mim.

-Mas e então, o que achou? Mesmo sendo tudo inventado, gostou?
Fim;

Ligação rápida;

•Maio 2, 2009 • 1 Comentário

Ligação rápida, apenas para passar-lhes um singelo texto.

Uma noite semi em claro
Deitada em sua cama, ela tenta dormir. Mas, é claro, não consegue.
Afunda o rosto no travesseiro, muda de pose vezes incotáveis; abre os olhos, os fecha.
E continua sem conseguir dormir.
Por fim, se cansa, desiste de tentar se segurar. Ela corre até o telefone e disca seu número, que de tanto ligar já até decorou, e espera.
Espera impacientemente enquanto o telefone o chama para perto.
Ele atende.
-Sim?
-Sou eu, desculpe ligar assim tão tarde mas é que…
Ela perde a voz no meio do caminho. Ele sente que ela não conseguirá continuar, então toma o fio da conversa logo para não angustiá-la.
-Não tem problema. O que houve?
-Ah… É que… Está tudo bem aí?
-Sim, está.
Com ele, ora, sempre está tudo bem. Muito bem.
-E com você?
-Tudo… Andando, você sabe.
-Sim, eu sei. Espero que esteja andando de maneira boa.
-De maneira boa ou não – ela lança rapidamente -,ao menos está andando. E isto é fato.
Ele não a responde, concorda em silêncio. Fatos são fatos, não há como discuti-los de forma útil às três e meia da manhã. Ela sabe disto, então não insiste no assunto.
Ambos não dizem nada, o calor da falta de palavras come o ar como uma chama, enerva-a ainda mais. Mexe no fio do telefone, mexe nos cabelos, mexe com os pés o tapete ao lado da mesa de cabeceira.
Não dá mais para negar a si mesma aquela pergunta.
-Ainda está… Naquele lugar?
Por instantes tensos não há resposta
-Não., até que ele finalmente diz.
-E onde está…?
Sua voz soa ligeiramente esganiçada pela surpresa.
-Outro lugar, não muito longe deste…, ele parece tentar amenizar a situação.
Mas já está em outro lugar, outro.
-Humm… Mas é longe daqui, não é?
-É, é longe… Um pouco. Ambos são distantes.
-E você vai demorar para chegar?
Ele olha para as nuvens que cercam seu quintal, encostando no chão suas faces úmidas e tristes.
-Não muito, eu espero. Depende de quanto tempo mais quiserem que eu fique aqui.
-Ah bem… Tudo bem.
Ela olha para o porta retrato vazio, ele levou a foto consigo, está dentro da mala. Ela está amargurada.
-Você sabe que eu amo você, não é?
-Muito?
-Muito.
-De verdade?
-De verdade.
-Eu também amo você… Muito e de verdade.
-Que bom. Então, boa noite?
-E bons sonhos.
-Bastantes sonhos.
E ambos desligam, ao mesmo tempo, sem piscar.
Ela retorna para cama se arrastando, está mais tranqüila. Em pouco tempo, questão de dez minutos, cai no sono, envolta num embrulho de macios e carinhosos pensamentos.”

Eles se odeiam;

•Abril 27, 2009 • 4 Comentários

cat-and-lollipopavatarSe eu fosse definir a mim mesma, o que eu diria?
Bom, esta é uma pergunta cruel que fiz para mim depois de ela ter me perguntado uma meia dúzia de vezes. Quem é ‘ela’? Ah, ela é um dos gatos, mas depois explicarei melhor sobre quem ela é, ou quem quer ser, ou o que eu quero que seja, ou quem ele queria que ela não fosse. Confuso, não?

Mas tinha de ser confuso mesmo, afinal de contas, definir o que é alguma coisa ou alguém é algo muito complicado. E acredito que você mesmo já saiba disto, não é, meu caro senhor?

E o que eu diria para me definir? “Ah, eu não sei, Nee-chan. Não sei me definir assim.”, eu respondi a ela. “É algo complicado demais. Nossa! Você me pede coisas complicadas demais.”
Ela levantou uma de suas sobrancelhas e disse vagamente, com seu ar misterioso de sempre: “Pois saiba que você sabe a resposta para esta pergunta, querida. E um dia ela virá à tona com todas as suas forças, e é bom você estar preparada para este dia. Nunca se sabe o que uma pessoa pode fazer quando consegue se definir.”
Eu olhei em seus olhos e procurei neles repostas para todas as perguntas que corriam soltas em minha mente. Mas as respostas eram rápidas demais, elas rodavam e fugiam de mim, tirando sarro de meus passos lentos. As respostas me lembram pequenos ratinhos de corda, daqueles que costumavam a se comprar para gatos de estimação, davam cordas neles e atiravam aos gatinhos; os gatos, atazanados, corriam atrás dos ratinhos de corda, e quando os alcançavam perdiam toda a animação… “São apenas brinquedos inúteis.”, os gatos pensam deles.
No entanto, eu não sabia que estas respostas eram inúteis, pois na época eu ainda corria atrás delas, ainda não havia alcançado nenhuma para constatar que não me serviria de muita coisa. Então, eu continuava tentando responder Nee-chan, “como eu me definiria?”.

E um dia desses, rolando na cama, com Charlie cochilando ao meu lado, um rapaz chegou.
O nome deste rapaz é Scheele, e ele é o segundo gato. Falando de forma mais realística possível, para os que não são eu, nem Scheele e nem Nee-chan, e, logo, não compreendem a fundo o que se passa no grande novelo de lã que é minha mente; falando de forma simples, Scheele não existe realmente, ele é uma invenção minha, como um amigo imaginário, entende, caro senhor? Vez por outra gosto de criar uma destas criaturas, a que, recentemente, criei o hábito de chamar de ‘gato’, pois eu gosto muito delas e também porque são parte de mim.
Scheele estava confuso, caído no meio de minha mente, olhando para um lado e para outro, sem saber o que dizer. Ele sabia como se chamava mas não sabia como sabia como se chamava. Como dá para notar, ele estava realmente muito confuso. Então, Nee-chan logo foi até ele, para saber de quem se tratava.  Lembro-me de que, quando criei Scheele, esqueci-me de avisar a Nee-chan de sua chegada, logo, ao ver aquele ser desconhecido e estranho, apesar de muito bem trajado, Nee-chan sentiu uma grande suspeita crescer dentro de si.
-Onamaewa? (“Seu nome?”), Nee-chan o perguntou, inquisitiva e incisiva.
E, sendo cruel como gosto de ser, vez por outra, para deixar as coisas mais interessantes, fiz com que Scheele nascesse sem saber uma única palavra de japonês.  Então, sem entender uma palavra, Scheele apenas foi capaz de lançar para Nee-chan um olhar inocentemente deslocado, olhar o qual Nee-chan agarrou com desgosto e impaciência. “Quem é este moleque?”, ela se perguntava.
-Anatawadaredesuka? (“Quem você é?”), ela perguntou a ele novamente, revidando contra a mesma tecla.
Sem ver alternativas, o rapaz apenas respondeu, corado de vergonha e nervosismo: “Desculpe, mas não entendi…”.
No mesmo momento, ela compreendeu quem era ele, e, mordendo os lábios,  riu com desdém.
-Já entendi… Você faz mesmo o tipo de personagem dela.
E, a partir de então, os dois, Scheele e Nee-chan, passaram a se odiar. Ou melhor, apenas Nee-chan o odeia, Scheele não quer nada com Nee-chan, não tem o menor interesse em conhecê-la.  E, talvez mesmo, Nee-chan nem o odeie, pois odiar é uma palavra muito forte, ela apenas não vai com o jeito dele, aquele jeito que faz meu tipo de personagem.
Naquele momento, após Nee-chan rir e dizer a Scheele o que achava com muita sinceridade, eu acabei por intervir. Não seria nada agradável que ela o magoasse, dissesse-lhe mais coisas sinceras, isto poderia ser a ele terrível. Então, eu intervi.
Pedi para Nee-chan levar Charlie consigo, que eu trouxera em meus braços quando me aproximara dos dois, e ir para algum outro lugar, pois eu teria de explicar do que se tratava aquilo para aquele novo rapaz.
Vendo que seria mesmo necessária minha explicação, e mesmo inquieta, Nee-chan resolveu sair dali.
Sentamo-nos num banco, eu e Scheele, e lá eu disse a ele onde estávamos.
“Estamos num lugar ligeiramente confuso, talvez pareça um novelo de lã por tamanha confusão. Este lugar eu chamo de mente. Não quero que você o encare como mundo, isto não é o mundo, eu gostaria de que você o encarasse também como ‘mente’. Para cá você pode trazer todas as lembranças que tiver, aqui as lembranças soam como objetos, cartas, caixas, bijuterias, ou como pessoas, seus amigos, parentes, amores. E aqui você pode descansar quando quiser. Mas aqui não é o mundo.”
Ele consentiu, mesmo sem compreender perfeitamente o que falara, e então perguntou-me se ele próprio era mesmo, como Nee-chan havia lhe dito, ‘um personagem’.
Eu fechei os olhos e suspirei.
“Sim, de certa forma você é um personagem. Eu o criei e posso exlui-lo quando bem entender…”, ele estremeceu ao ouvir isto, então eu tratei de completar. “No entanto, você continuará existindo, apenas virará uma lembrança. Se eu o destruir, você virá para cá e se tornará uma lembrança, materializado como uma pessoa, e só a partir de então, este lugar, que era mente para mim e para você também, se tornará seu mundo. E, como seu mundo, você só poderá viver por aqui… “
Scheele sorriu tristemente. “Mas então eu continuarei vivendo, não é?”
Eu olhei para ele brevemente, virando depois os olhos para a paisagem que nos cercava, um enorme gramado verde e novo sob um céu azul com esparsas nuvens.
“Eu tenho dezenas de personagens, talvez centenas… Eles vivem aqui dentro e consideram este lugar como mundo, sim, eles consideram este lugar como mundo e, ainda sim, vivem. Cada um tem sua realidade, cada um tem um local que eu criei para eles, eu mesma não posso visitá-los porque isto poderia alterar a realidade deles. Estes personagens não sabem onde estão e nem o que fazem realmente, eles apenas vivem no que vivem e como vivem. Uma vez ou outra eu acabo, impulsivamente, soltando um deles de sua realidade, e, logo, eles vêm morar na minha. O que quero dizer com isto é que você, antes, tinha seu próprio ambiente, lá eu chamava de Franz. Sim, Franz é seu primeiro nome e Scheele é seu sobrenome. Mas, então, por algum motivo que eu mesma não poderia precisar, eu o deixei vir para a minha realidade. Um dia eu posso me sentir confusa e cansada, afinal, como você, também sou humana, e resolver mandá-lo devolta ao seu lugar; quando eu fizer isto, você passará a ser uma lembrança da minha mente, e uma pessoa no seu mundo. Entende?”
E, depois deste longo discurso, que eu mesma não conseguia entender muito bem, Scheele começou a chorar.
“Maldição, eu o fiz chorar…”, pensei.
“Q… Qual a minha utilidade?”, ele gaguejava nervosamente. “Quem eu… O que, o que me define?”
Eu abaixei a cabeça e apoiei os cotovelos em meus joelhos. “Como eu me definiria?…”, lembrei-me do dia em que perguntei isto a mim mesma. “Mas que garoto! Tinha que usar logo este verbo? Definir?”
Então, novamente, os ratinhos de corda foram soltos em minha frente. Era como se eu estivesse no lugar de Nee-chan e Scheele, no meu; e como é que, naquele dia, Nee-chan tinha conseguido o direito, que naturalmente a mim pertencia, de perguntar-me algo como aquilo? Ou melhor… Será que o direito de fazer perguntas como estas era só meu? Quem é dono deste corpo, eu ou os meus aparentes ‘personagens’?
“A essência de um gato.”, eu o respondi repentinamente, com a voz firme como uma rocha, como se dissesse algo universalmente decidido. E assim eu repliquei, pois assim me veio à mente, ao mundo. “Eu e você, nós temos a essência de um gato.”
Scheele ainda tinha os olhos molhados e o rosto avermelhado pelo recente choro. “O que quer dizer com isto?” E também tinha a voz incerta, mas acho que isto é algo de seu eterno jeito.
“Para a sociedade, meus gatos sempre foram como bichos de estimação meus, eu os criava, eu os alimentava, acariciava, fazia do meu mundo o mundo deles… Mas isto nunca foi verdade, meus gatos podem ser aparentemente meus, meus bichinhos e personagens, chamem-os como quiser, mas eles, na verdade, eram parte de mim e, ao mesmo tempo, eram parte deles mesmos. Porque ninguém pertence a ninguém… Nós somos partes de outras pessoas, somos as partes que cedemos a elas, contando memórias, passando tardes, noites, manhãs e dias juntos. Então, meus gatos não pertenciam a mim. As partes que eu conhecia deles eram partes de mim, e vice-versa. Será que estou me fazendo entender? Bom, eu posso tê-lo criado e posso cuidar de você para sempre, mas nunca terei você para mim como todo, porque nunca o conhecerei totalmente, você pode esconder de mim o que quiser… Você é como um gato para mim e eu sou como um gato para você.”
Ambos sorrimos. Era tão complicado e difuso… E aquela resposta era tão… inútil, “Como um ratinho de corda!”, eu percebi quando a agarrei.
“Então não vou sumir?”, Scheele me perguntou.
“Não, nunca…”
“Nem se eu me tornar uma lembrança?”
“Se isto ocorrer um dia, você terá se tornado outra coisa, mas não terá deixado de existir.”
Ele assentiu taciturnamente. E por instantes sua mente e a minha pareciam claras e limpas, até Nee-chan chegar até nós, sorrateiramente.
Quando a vi ali, parada, chegando de algum lugar que não sei onde era, eu compreendi que ela havia ouvido a conversa toda, cabo a rabo. Ela olhou-nos calmamente, do alto de sua personalidade, e sorriu para mim com muita ironia. Eu devolvi a ela um olhar também irônico, e esperei ela dizer o que estava para me perguntar há muito tempo, esperando apenas o momento certo.
“E qual a sua utilidade?”, mas dirigiu a pergunta para Scheele, cruelmente.
O rapaz estremeceu, tentou responder algo, mas, frustrado, cerrou os lábios e engoliu a seco.
Eu passei a mão sobre minha testa, conçando-a, suspirando. “Ai, ai… Eles hão de se odiar… E, afinal, quem deu a Nee-chan o direito de fazer perguntas como esta? Ah, maldito caminhar felino…”

it was just One of My Turns/

•Fevereiro 22, 2009 • 4 Comentários

Minha irmã e meu pai decidiram que eu, ela e o Kadu não íamos mais ao cinema.
“O quê?”, perguntei leve, vagarosa e tristemente. Não haveria nada de especial no shopping. Mas também não havia nada de especial em casa.

E, deitada no sofá, fiquei com aquela expressão vaga, contendo a raiva que queria sair, deixando escorrer dentro de mim, caindo pelo meu organismo, a tristeza eternamente latente.

“Por que fiz aquilo hoje?” Por que fiz aquilo ontem?
Não havia nada. Queria apenas continuar ali, de olhos fechados, com o rosto colado à almofada vermelha, para sempre. “Sempre é muito tempo.”

Minha irmã tentou me ajudar. Perguntou se eu queria fazer alguma coisa. “Sim, apenas continuar aqui. Para sempre é muito tempo. Para sempre é ótimo.”

Mas eu não queria ajudar, ora. Levantei-me e fui para o quintal, levei minhas folhas de rascunho e meu compasso. Queria ficar lá apenas tentando inscrever um pentágono numa circunferência. Porém, ao chegar no quintal, me deitar no chão e olhar para o céu, eu apenas me perguntava “por que fiz aquilo hoje?”. Então, continuei lá, de barriga para cima, observando aqueles imortais pontinhos brilhantes no céu, tentando separar as estrelas dos planetas, mas as nuvens estavam cruéis e me atrapalhavam.

“Hey, Moon, desde quando eles estão ali?”, perguntei-me desde quando eles, os pontinhos brilhantes, estavam ali.

Ah, somos todos poeira cósmica. Eles também são. E nós fomos eles, quem sabe eles serão nós? Se é assim, somos imortais. “Ser poeira cósmica não é tão feio assim, é?”

Enquanto isto, mnha irmã me procurava pelo quintal. Eu sabia, mas a ignorava, sempre fiz isto. Quero que me achem naquele cantinho estratégico, quero que me perguntem se estou bem… Mas, por favor, não quero que vão embora. Vocês sempre foram? Foram poeira cósmica, vocês sempre foram, e, então, foram embora.

Knock. Bateram na minha porta de novo, que insistência!
“Que houve? Por que você está chorando?”, minha irmã me perguntou, puxando-me pelo braço.

“Eu não sei, eu nunca sei…”, e eu não tinha nada a dizer. Nós discutimos e ela foi embora.

Não falei?

Depois eu fui para o meu quarto, deitei-me e fiquei pensando. Estava no colchão fino que o Kadu usa quando passa na nossa casa. Aquele colchão estava confortável, úmido de lágrimas, mas estranhamente confortável. É que eu estava conformada com o desconforto do colchão, o desconforto daquela tristeza era gostoso.
Respondam-me o que eu me perguntava ontem, por favor.

“Você se sente triste, mas se sente bem assim?”
“Você, quando fica entediado, fica, simplesmente, entediado ou fica triste?”
“Você procura algo?”

Eu decidi escrever para aliviar aquela sensação. Não poderia ficar parada ali assim, já havia passado muito tempo. Eu já havia deixado passar muito tempo.
Tive, então, de ir ao quarto de meus pais para pegar meu caderno. Eles viram me rosto vermelho e minha cara distorcida. Eu peguei meu caderno e fui embora, ignorando suas perguntas, se eu estava bem. Eu sempre faço isto. Eu vou embora. “Mas sempre é muito tempo.”

Deitei no meu colchão fino, de novo, desta vez com a luz acesa, claro. Claro que estava claro…
A tristeza vem a alegria vai, e como é difícil voltar a tomar esta alegria para mim! Bastam dois comprimidos de manhã. Bastam apenas cinqüenta miligramas demotivação. Mas… Como é difícil querê-la para mim!
Conformo-me com esta sensação vaga, mas  não me conformo em ficar bem. Isto é, ao menos não quando estou distorcida.

Meu pai entrou no quarto para me buscar, ele me perguntou o que estava havendo. Para ele eu contei…
Por que para ele? Não sei, eu sou a pequena dele e ele, apesar de uma pessoa grande e incrível, é pequeno por aqui também.
Ele entenderia o que eu gostaria de dizer quando dissesse:

“Ei, você sabe como eu adoro One of My Turns?”
“Claro é a luz, ora…”, disse Nee-chan.

Chá “Tomou-Bateu”

•Janeiro 29, 2009 • 5 Comentários

Ontem estava indo dormir e me lembrei que havia comprado, na segunda-feira, quando fora ao supermercado com meu pai, um chá para se tomar antes de dormir. Não que eu estivesse com sono, mas resolvi tomar, eu gosto bastante de chás.

Preparei e levei para o quarto, como ainda estava muito quente, e eu sabia que continuaria bem quente por um tempo, resolvi assistir House enquanto esfriava. Pus o chá no chão, ao lado da cama, liguei o ar-condicionado e coloquei o dvd para rodar. No meio do episódio já dava para beber, então, bebi em goles espassados.

O chá desceu quentinho pela garganta, voltei a me deitar para assistir a House discutindo com a mãe de um paciente e com Foreman, além de varias outras pessoas, para assistir a uma velhinha bem da serelepe dando em cima dele, e também a ele capengando com sua bengala hospital a fora.

Ai, ai. Acabou o episódio e o dvd. Desliguei a tevê e, obedecendo à rotina, desci as escadas para pegar meu mp4 que estava sobre o sofá. Voltei ao quarto, apaguei a luz, me deitei para dormir. Enfiada debaixo das cobertas sentia um gosto calmo de sono, meus olhos iam ficando pesados, “o chá deve estar fazendo efeito ou eu estou cansada mesmo”, pensei. Liguei o mp4 e pus os fones novos (comprados no mesmo dia) em meus ouvidos encerados (mas limpos, podem ter certeza! Tenho mania de limpar as orelhas sempre, é quase um tique.), como de costume coloquei Mozart para ouvir. Aí vai uma dica: se querem realmente “sentir” uma música, ouçam-na de olhos fechados.

Então, com os olhos fechados, fui, aos poucos, tentar sentir o que os violinos do Trio Grumiaux queriam dizer. Em vão… Antes mesmo de chegar ao Quinteto No. 6, Allegro di Molto, cai no sono. Foi muito rápido, bati. Daí o meu apelido carinhoso para este chá: o chá tomou-bateu.

Por um lado foi positivo, pois não tive “sonhos” estranhos enquanto ouvia Mozart. Por outro, nem tão positivo, exatamente por não ter tido tais sonhos. Que coisa!

Anteontem, quando fui dormir, repetindo o mesmo ritual, mas sem o tal chá, um destes “sonhos” me surgiu.  Olhos fechados, headphone (ainda não tinha os fones que usei ontem), Mozart… “Mozart… O que ele quer dizer?”, me perguntei enquanto ouvia o Trio Grumiaux tocar divinamente. Para mim é um mistério, e que me incomoda bastante, tentar entender o que os grandes compositores de música erudita querem dizer ao compô-las. O que querem passar? O que devemos sentir? Por isto, este comichão dentro de mim querendo saber o que queriam eles, quando era pequena não ouvia músicas instrumentais. Hoje em dia, desisti de entender. Apenas as “sinto”.

Então, como ia dizendo, estava deitada entre os cobertores da minha irmã (deitara na cama dela), e ouvia calmamente. De repente! De repente, lá estava eu… era um corredor? Parecia um corredor, totalmente escuro, e no mesmo momento em que surgi nele eu entendi: é como em Dance Dance Dance. Há um corredor escuro com cheiro de bolor. Mas eu não sentia o cheiro do bolor, “então não pode ser o mesmo lugar”, pensei, pois o cheiro de bolor é essencial, faz parte daquele corredor. No entanto, aquele corredor do Haruki-san e o meu corredor tinham coisas em comum.

O escuro era muito denso. E havia algo no final dele. O que poderia ser? Um homem-carneiro, como no livro, ou estaria lá, sentado em frente a um piano de cauda, o Senhor Amadeus? Eu realmente não sabia, queria muito descobrir. Então, fui me adentrando lá.

Algo muito importante! Algo muito importante e que eu devo pontificar é o fato de que, enquanto me perguntava todas estas coisas, enquanto adentrava no corredor, enquanto a curiosidade e a adrenalina escorriam dentro de meus pulsos, eu estava plenamente consciente e extremamente acordada.

Algo muito importante! E outro “algo” muito importante era que eu, mesmo curiosa para entrar naquele corredor, estando acordada e sabendo que aquilo tudo era apenas minha imaginação trabalhando em um “sonho”, eu estava com muito receio (não medo, verdadeiramente não era medo) de me adentrar… Sentia medo de não sair mais dali, caso fosse longe demais, e por causa disto eu tinha receio de ir longe (ou perto, pois eu não sabia a partir de que distância a distância se tornaria longe para mim). Para ilustrar a situação: era como quando se está numa piscina muito funda, você deseja ir tocar o chão dela (talvez apenas pelo desejo de dizer que um dia tocou nele), porém sente medo de perder o fôlego, ter cãimbra, algo assim, e morrer naquele fundo. Não sair mais.

Eu pensava dentro do corredor, deitada na minha cama, com os olhos fechados, observando o escuro do lugar, enrolada nos cobertores de minha irmã, com Mozart saindo pelo headphone. E pensava em algo como: “pare, volte, é só se movimentar que você acorda… Não vá. Vá. É só se movimentar que você acorda, não há perigos… Quem está lá no final? Você pode não voltar, movimente-se, movimente-se. É só se movimentar… Só mais um passo…”. E dei mais passos, mais passos…

Mas parei, sem mais coragem. E, antes de poder retomar a tal coragem para a parte de mim que queria seguir em frente, a parte que não queria aproveitou a chance e, violentamente, tomou conta de meu corpo. Movimentei-me. Eu? Ela? Nós…

Seja como for, eu queria ter visto Mozart… ou o homem-carneiro? Sei não… Queria, simplesmente, ter chegado ao final do corredor. Mas não é hoje que conseguirei esta proeza… Porque acabei de tomar meu chá.

E… tomou-bateu.

Bati.

Knock, knock. Is there anybody in there?

Cheguei ao final.