“What kind of fuckery are we? Are you?”

14 Out

Olá, minha gente!
Creio que há pelo menos um mês aí que não nos encontramos; ou, melhor dizendo, que por aqui não nos falamos. Neste meio tempo andei escrevendo algumas besteirinhas não muito dignas de atenção, e, em maioria, pessoais demais para serem aqui dispostas. No entanto, finalmente consegui algo aparentemente interessante e que hoje vim entregar-lhes…

A início de conversa gostaria de explicar duas coisas: uma delas envolve merchandising (o que não me agrada nem um pouco, já que vai contra meu instinto comunista – instinto este que não me agrada nem um pouco) e outra que envolve um, digamos, desmerchandising (o que me agrada à pampas, já que, perceberão, vai contra minhas manias narcisistas – manias estas que costumam a afagar meu ego, mas desagradar meu racionalismo).
Pois então…!
A primeira coisa é explicar um nome que aparece logo nos inícios deste meu texto, o “Rota 66″. Alguns talvez conheçam por, bem, conhecerem, outros por terem ouvido pela minha própria boca; todavia, me sinto na obrigação de explicar àqueles que até então não ouviram falar sobre… O Rota 66 se trata de um restaurante bem gostozinho, de comida meio mexicana, meio texana (tex-mex), que se encontra na Praça Varnhagen. Aqui, Rota 66, vocês podem saber um pouco mais sobre o restaurante (que eu indico), e até mesmo entrar mais no clima do texto.
Ok, fim da merchandising… Ufa!
Agora, vamos à segunda coisa…
Trata-se de por que motivo disse ter achado este texto “aparentemente interessante”, e acaba por se tratar também de um agradecimento às duas primeiras pessoas que o leram: Augusto e Rodrigo. Meu primeiro amigo cá citado deu algumas risadas durante o texto e disse tê-lo achado com mais vida que aqueles anteriores que já escrevi… Já a segunda criatura me pentelhou profundamente para que eu viesse aqui e o postasse; caso contrário, sei lá, ele iria me dar um super peteleco na orelha esquerda (a que tem mais brincos)! hehe Então, muito obrigada a ambos pela força, e por causa do pedido dos dois estou deixando meu texto cá no blog. E, na realidade, muito obrigada a todos que sempre vêm aqui ler meus textos…
Espero que gostem deste novo!

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Fuckery;

“E tudo em que consigo pensar é ‘Who’s the next fucker in line?’.”

 

Meu toque de celular naquela semana era Clapton, I Shot the Sheriff.

I shot the sheriff… But I did not shot the deputy.”, e, quando atendi ao telefone, era a voz de Madalena do outro lado. Simples, suave e, como sempre, laranja. “Rota 66, Madalena? Mas está chovendo, e eu ir de moto para lá…” Praça Varnhagen, comida tex-mex; não existia outra cogitação possível naquele universo, não naquele dia.

Encerrada a ligação, que não durou muito mais que um minuto, rapidamente fui me meter dentro de minha calça jeans e de uma blusa limpa. E, quando ainda mal começava a vestir o velho macacão preto da moto (evidentemente e especialmente projetado para dias de chuva), Clapton voltou a cantar…

Sim?
Já cheguei.”
“Em três minutos?”
“É que eu já estava aqui.”
“Ah, sim…”

 

Madalena estava enfurecida, mas, é claro, enfurecida à sua maneira. Seus olhos escuros estavam baixios, e seus dedos tamborilavam contra a mesa, fazendo de seus dezesseis anéis uma bateria de bumbo-duplo. Não qualquer bateria de bumbo-duplo, mas uma como se fosse tocada por Densmore. O som bruto daquela fúria manual sendo tocado de maneira curiosamente suave…

Madalena quando ficava aborrecida nunca fora mulher de fazer o menor chiado. Ela não era aguda: era simples, suave e laranja. E, nos momentos em que tinha problemas com homens, como era o caso daquele dia, jamais jogava o papel de tola; sem xingamentos, sem gritos, sem nada que beirasse reações humanas normais, quanto menos a feminilidade. Apenas aqueles pares de mãos imitando todo o oitavo minuto de The End, sem nunca chegar ao final dele… Creio que, com essa postura que ela erguia, eram seus homens os que ficavam realmente aborrecidos. Talvez fosse disto que se tratasse o jogo.

“E tudo em que consigo pensar é ‘Who’s the next fucker in line?’.

“Não lhe falei, mas estou extremamente musical hoje.”, e ela riu de maneira bem sarcástica, seca. “Antes que você chegasse; na verdade, quase o dia todo… Sabe Tears Dry on Their Own?”

“Winehouse?” E ela concordou com um balançar sutil de sua cabeça, sem necessidade de movimentos desproporcionais. “O que tem a música?”

“‘Ah, can I play myself again? Or should I just be my own best friend? Not fuck myself in the head with… Stupid men.’”, Madalena cantarolou a letra, fazendo de conta a voz da falecida sem a menor dificuldade. “Quero dizer… Quer foder outra pessoa que não seja sua namorada? Compreendo, os seres humanos fazem isso. Porém, na minha cama, no meu apartamento, no lençol verde-limão que comprei quinta-feira passada…? Também compreendo, só não pretendo ter a capacidade de permiti-lo.”

“Você chega a ser engraçada. Como pode ser tão…?”, até então eu não sabia que era aquela a história: que a garota havia pego o namorado transando com outra garota. E, acima daqueles sete anos que conhecia Madalena, continuava sendo impressionante a tranqüilidade com que as palavras escorriam por sua boca… Psicótica?

“Acho que é seu cabelo laranja… Por si só, ele já expressa tudo que você teria a expressar.” Ela levou a mão esquerda àquele curto mar de cachos… Os fios tingidos desordenadamente de uma cor cogumelo Jack O’Lantern, ou também conhecida, entre nós dois, como cor Omphalotus olearius… O que não se trata muito mais que uma faixa entre laranja-escuro e amarelo-queimado. Comparações de micólogos de fundo-de-quintal nunca podem ser realmente muito engraçadas…

“Quisera que fosse isso do cabelo. Talvez assim diminuíssem meu tempo no calabouço-de-Dodah, vulgo hospital psiquiátrico. Ou talvez, ao menos, reduzissem minhas doses de Rivotril… Agora, quando fico sem esta merd…”

O garçom se aproximou, mas Madalena havia interrompido suas palavras muitos segundos antes de ele sequer cruzar olhares com nossa mesa; não fora ele que a freara em seu típico palavrão. Ela nunca é pega de surpresa? Não que eu ache que ela fosse se incomodar em ser vista falando um “merda”. Só seria interessante, uma vezinha…  E num instante havia lá, dum canto da mesa, a Budweiser dela e, doutro canto, minha água mineral. Sem gás.

“Contudo, entretanto, todavia, no entanto. Voltando ao assunto inicial… Diz para mim, não poderia ter sido no sofá? Não poderiam ter pagado um motel? Se dou a chave do meu apartamento prum camarada, acho que está implícita a regra de não se transar com outra mulher no meu lençol novo…”

“Olha, Madalena, eu não quero ofender você, mas posso acabar ofendendo de alguma forma, mesmo sabendo que não vou ofendê-la de maneira nenhuma. Mas, então… A questão é que você sempre ‘bate na cabeça com caras estúpidos’. Sei lá, quando foi a última vez em que você fez um teste de QI?”

“Que porra…?”
“Só diz quando.”
“Quando entrei no hospital; dezoito de brumário de 1799.”Eu levantei uma de minhas sobrancelhas, e ela suspirou: “Ok, em data de seres humanos normais. Nove de novembro de 2007. É só que acho engraçado ter caído no dia do 18 de Brumário… Não tenho direito de achar engraçado?”.

“E quanto deu o teste?”
“Quanto? Que diferença isso faz? Faz quatro anos que fiz essa meleca.”
“Ora, para pior é que não deve ter caído…”
“Mas você sabe que pode.”
“Consideremos simplesmente pela sua afirmação, ‘Você sabe que pode.’, que ou permaneceu nos mesmos números ou aumentou.”, e mais uma vez fiz Madalena suspirar… Um ar que revolvia a cerveja e a nachos com pimenta chili.

“Quociente de inteligência… Cento e sessenta e seis.”

Por tudo de mais sagrado no mundo, se ao menos pudesse, eu juraria me casar com aquela mulher naquele instante e a fazer feliz para o resto da vida, e sempre pintar o cabelo dela de cogumelo Jack O’Lantern, e jamais levar outra mulher para sobre qualquer lençol que lhe pertencesse, velho ou novo. Por tudo de mais sagrado no mundo… O que, basicamente, significava não outra coisa (pessoa) se não Madalena Lima. Mas juramento que, pela própria pessoa (coisa) Madalena Lima, jamais poderia ser feito… Meu deus, eu sabia que era alto, mas ela nunca havia me falado quanto eram os números.

Engoli a seco, a bem seco por sinal, e continuei com meu raciocínio…: “Pois bem. Estamos praticamente brincando de Uma Mente Brilhante aqui, e você me vem namorar um cara que escuta Detonautas sem fones-de-ouvido no ônibus?”

“Alguma coisa contra Detonautas?”

“Nada contra Detonautas. Mas temos que concordar que a combinação é absurda… Até mesmo namorar com alguém que escutasse Funk sem fones seria muito mais razoável! Convenha, Li…” Oh, não… Apelido carinhoso e crítica, essa combinação é o mais claro dos ciúmes. Ela vai notar isto num piscar…

“Não seja tão ciumento, você sabe o quanto esse tipo de coisa me deixa aborrecida e enojada. Fora que já cansei de lhe explicar o porquê dos imbecis: se eu for namorar alguém inteligente, ele, ou ela, com certeza irá reparar nos Parcher, Marcee e Charles da vida (aproveitando a citação de Genie und Wahnsinn – desculpe, mas me sinto obrigada a usar o título alemão deste livro, ao menos em nome de Sylvia). Enquanto que um idiota… Bom, já os idiotas nunca notaram.”

“Talvez o fato de você ser mais inteligente que as pessoas inteligentes as tornasse burras o suficiente para caírem nos disfarces das suas crises. Ou, então… Tentando ser um pouco chato com você…”

“Não comece com isso…”

“Talvez o outro fato, esse de você esconder dos seus namorados de que tem esquizofrenia. O que não é nem um pouco grave…”, e é claro que, neste instante, aproveitava o meu máximo para implicar com Madalena.

“Não fode.”

“Nem um pouquinho grave… Talvez seja isto que os leve a, bom, você sabe o quê.”
“Não só sei disto, como sei que você também sabe que eu não pretendo comentar sobre meus problemas de psicose com as pessoas com as quais faço sexo.”
“Então o problema é somente o sexo?”
“Não, meu querido, o problema não é o sexo. Ele é a solução. Pode perguntar isto para minha terapeuta.”
“E também posso perguntar à sua terapeuta se ela acha saudável namorar por um ano um homem que escuta Detonautas sem fones no ônibus, não contar a este homem que você tem esquizofrenia e terminar, num restaurante tex-mex, se lamentando (e bebendo pra caralho por sinal) que ele a traiu…”

“Ela vai responder a você que é melhor não contrariar maluco.”
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P.S.: gostaria apenas de explicar este pequeno detalhe… O verso que aparece no título deste post, “What kind of fuckery are we? Are you?”, é da música Me & Mr. Jones, da Winehouse. Deixo aqui o link no YouTube desta música, porque, além de achar que ela caracteriza em muito Madalena, creio que nunca é demais um pouco de boa música, de boa voz… Me & Mr. Jones

Unam-se, meus amigos!

28 Ago

É, meus amigos, um post depois de séculos e séculos de poeira acumulada. Não me estava fácil vir alguma idéia à mente; a maioria delas ou era ruim ou não conseguia tomar rumo… Em todo caso, finalmente, depois de muito vagar, consegui sentar o rabo na cadeira e colocar os córneos a pensar nalgum enredo, por mais estúpido que este fosse.
E, então, este texto que verão aqui hoje se desenvolveu de um sonho que teve um amigo de meu pai. Como está escrito, a história se trata de cinco personagens: Emílio, Marina, Roberto, George e Fernando; durante ela Emílio conta um sonho que teve, e, para arranhar este sonho no papel, foi quando me baseei no que teve o tal camarada.
Há também outro detalhe ao qual queria chamar atenção: a presença constante, ainda que intermitente, da música Come Together durante a fala e os pensamentos dos personagens. Explico aqui o porquê…:

“Here come old flattop, he come grooving up slowly
He got joo-joo eyeball, he one holy roller
He got hair down to his knee
Got to be a joker, he just do what he please

He wear no shoeshine, he got Toe-Jam football
He got monkey finger, he shoot Coca-Cola
He say ‘I know you, you know me
‘One thing I can tell you is you got to be free’

Come together right now, over me

He bag production, he got walrus gumboot
He got Ono sideboard, he one spinal cracker
He got feet down below his knee
Hold you in his armchair, you can feel his disease

Come together right now, over me

He roller-coaster, he got early warning
He got muddy water, he one mojo filter
He say ‘one and one and one is three’
Got to be good-looking ’cause he’s so hard to see

Come together right now, over me…”

Como talvez percebam, o personagem George foi baseado nesta música dos Beatles. E não digo isso apenas de minha parte, digo também da dele. Contar-lhes-ei parte de sua personalidade. George é um hijo-de-puta muito fã de John Lennon, mas que, amaldiçoadamente, foi batizado sob o nome de Harrison… Sua música favorita é, evidentemente, a que acima lhes deixei como presente; e, por gostar tanto dela e por se ver tão descaradamente retratado em sua letra (em especial quando Lennon canta “‘I know you, you know me. One thing I can tell is you got to be free!’”), resolve, aos doze anos, começar a deixar os cabelos crescerem. Até seus vinte e nove não corta um fio de cabelo, e eles finalmente lhe batem nos joelhos… De resto que posso dizer também é que ele é um ótimo patinador (na rua e no gelo), tendo como profissão os próprios in-line.

Agora, chega de revelar coisas sobre o enredo, e vamos ao que interessa (ou não…)!
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George, Meio e Fim;

“Estávamos nós quatro sentados no hall de um hotel.”
Fernando, Emílio, Roberto e eu estávamos confortavelmente acomodados nas pesadas cadeiras do Shenanigan’s, nosso pub irlandês preferido, enfiado num dos cantos de Ipanema.

Emílio, que era então quem nos falava naquele momento, dava uma pequena pausa em sua história enquanto entornava mais um gole de seu Jameson. Todos os quatro, ali, bebíamos whisky, mas cada um saindo com seu preferido: Emílio e Fernando compartilhavam o gosto por Jameson, além de também compartilharem a cama; Roberto enfiava goela a baixo enormes abocanhadas de Ballantines, pois para ele aquilo e dinheiro eram como água, e uma água pra lá de sem fim; enquanto eu, que pouco conhecia de whisky, simplesmente me divertia bebendo um Glenfiddich, “Gostei muito deste nome, sonoro, não?”.

Os três acompanhamos Emílio, e também derramamos um pouco mais para fora dos copos. “Estávamos sentados em sofás muito confortáveis; o lugar se parecia com a entrada dali daquele Windsor da Barra, sabem?”, Fernando e Roberto fizeram que sim em silêncio, eu não concordei e quanto menos discordei – não tinha a menor idéia de que tal local se tratava. “Tudo em tons bege, amarronzados… Tapeçarias enormes cobrindo o chão; um piso branco que parecia mármore; abajures altos, acompanhando os braços dos sofás e com lâmpadas de bulbo alaranjado… Tudo era também perfeitamente impecável.”

“Certo, e o que tem, afinal, de tão importante este sonho?”, Roberto, falando com seu bigode empapado de bebida, logo se pôs a interromper o engenhoso Emílio. Fernando levantou a sobrancelha, “Deixe-o continuar com a história, criatura! Logo vai entender o motivo.” e respondeu-lhe com um viés de desgosto.

“Pois bem…”, Emílio tomou outro gole, limpando a garganta com a bebida e também com um leve pigarro, e continuou: “Nina aqui nos falava sobre o hotel, quando havia sido construído, como havia sido desenhado, tudo o que se poderia imaginar… Nós três ouvíamos atentamente; e é uma pena que eu não me lembre de nada, porque, pela atenção em detalhes, parecia ser até um lugar real…!”.

“Eu contava sobre o lugar?”, perguntei-lhe coçando a cabeça.

“Sim, sim. Disse-nos que havia lido sobre ele num romance…”

“Marina e seus romances.”, Fernando riu sorrateiramente.

“Marina e seus cabelos, isso sim!”, e Roberto, atrevido como sempre, e como nunca, passou aquelas mãos pesadas pelos meus cabelos. Lancei-lhe um breve olhar, e ele rapidamente tornou a recuar. “Desculpe…”

“Bom, e então, enquanto Nina já seguia numa explicação sobre o romance em si, de repente aparece George atrás dela.
“Eu e Fernando nos sentávamos num dos sofás; você, Roberto, estava deitado num outro, de lado e ouvindo a história; Nina se inclinava sobre os próprios joelhos, enfiada numa das poltronas. E, então, como ia dizendo, George surge não sei de onde e dá um enorme abraço em Nina.”

Roberto bateu com o copo na mesa e, ainda que encarasse Emílio em um olhar furioso, permaneceu calado, apenas observando-o. Eu girei os olhos e outra vez passei a mão nos cabelos.

“Marina… Desculpe não ter perguntado antes, mas você se importa que eu o… Bom, que eu o mencione?”

“Não, Emílio, não se preocupe. Já passei dessa fase. Já… Já terminei o luto.”, disse como em um enorme suspiro. Roberto passou o braço por cima de meu ombro e, dando-me um abraço, acolheu minhas mágoas como que sendo as dele próprias. Desta vez aceitei seu carinho; tinha problema somente quando se tratava de mexerem em meus cabelos.

“Então, ok… Onde estava? Ah, sim!
“George veio com aquela mesma cabeleira enorme, os fios castanhos pendendo até os joelhos (como nos bons e velhos tempos), e também veio com aqueles óculos de Lennon no rosto. O gingado de gato, os patins in-line amarrados juntos pelos cadarços e largados sobre o ombro… E chegou a ser engraçado, porque você mesmo, Roberto, foi o primeiro a pular para abraçá-lo! Todos o demos ‘alô’, e ele só se curvou, o ‘agradecimento-teatral’… Para depois puxar uma Heineken do bolso da calça, aquele bolso gigante…!”

“Da calça verde?”, perguntei.

“É, a calça de leprechaun!”

Roberto, numa outra porrada, deu um golpe com o copo contra aquela grossa mesa de madeira; algumas pessoas no pub olharam espantadas, mas ele somente caiu numa grotesca gargalhada: “Aquela puta calça feia!”. E acabamos rindo todos juntos; “É, tenho de concordar, a calça era feia mesmo…”, Fernando falou entre gestos envergonhados, “Não sei como pude ter costurado um troço tão brega… Mas George a usava assim mesmo.”.

“Ele falava que presente de aniversário não se deve recusar…”, completou Emílio. “E que roupa é ‘Tudo pano da mesma loja de departamento.’. Figuraça…”

“Aquele cara estava era chapado noventa e nove por cento do tempo!”, falou Roberto, “Nem eu, trêbado, usaria uma merda daquelas… Mas, vai, continua com esse sonho doido que agora eu estou gostando.”

“Se me concede o direito, monsieur…”

“Eu o concedo. Mas ‘monsieur’ o caralho; eu sou é Sir.”

“Ok, Sir…”, e Emílio voltou a se preparar para a narração. “Ele puxou uma Heineken do bolso e a entregou para Nina. Ela abriu a garrafa na barra da calça e a devolveu para George, ‘Toma, Harrison…’. Você era a única que o podia chamar por Harrison…”

“É.”, disse num arquear de cabeça, “Se outro o chamava assim, ele virava um bicho…”. E deixei lentamente que o rosto sorridente de George tornasse a brincar em minha cabeça; patinando para lá e para cá, reclamando de seu nome, cantando músicas de Lennon… Cantando Come Together à toda voz.

“Então, George, bebendo sua cerveja, começou a nos falar de um passeio muito maluco que dera naquela tarde antes de chegar até o hotel. Disse algo como… ‘Coloquei os patins para vir aqui, e estava um vendaval horrível… Sabe como são manhãs de Abril, não é? E o vento tava levantando toda a poeira do chão, tirando um monte de folha das amendoeiras ali da Grajaú… Começou a entrar pedrinha nos meus olhos, e nisso percebi que tinha me esquecido dos meus óculos! Aí voltei correndo para casa, peguei-os no quarto, e retornei à rua. Mas quando coloquei os pés na calçada, já não me lembrava mais de onde tinha marcado com vocês… E, como não tinha anotado, bom, me fodi!’
“E ele contou que resolveu, então, passar na casa de cada um de nós; mas que já tínhamos todos saído. A sorte dele, ao que parece, foi encontrar Yon no meio do caminho, e ele soube dizer onde estávamos. Só assim chegou a nos encontrar.”

“Yon?! Está de brincadeira, né, marmanjo? O filho-da-puta do Yon sabia onde íamos nos encontrar?”, Roberto desta vez não precisou bater na mesa, e simplesmente lançou suas palavras de forma bem ríspida, em puro descontentamento.

“Calma, vai se lembrando que isso foi só um sonho.”, Fernando passou-lhe seu copo de Jameson e disse outra vez para se acalmar. “Toma, o seu whisky acabou, e não quero mais o meu.”

“O whisky eu aceito; mas não vou deixar de me emputecer. Você sabe bem o que aquele bastardo fez com o George, e com todos nós por sinal!”, e simplesmente virou o resto do copo de Fernando (que ainda estava na metade) antes de chamar o garçom para pedir outras duas doses de Ballantines para si. “E vê mais uma de Glenfiddich para a garota aqui, seu Zé!”, completou o pedido, para depois virar-se a mim: “Você bebe muito rápido, nem parece mulher…”.

“Gosto de beber, só isso. E pára de chamar os garçons de ‘seu Zé’! Toma vergonha na cara, Roberto!”

“Tem vergonha também, seu Zé?!”, ele gritou ao garçom que, então, anotava os pedidos de outra mesa. O rapaz, jovem e simpático (além de, aparentemente, bem acostumado com bêbados como Roberto), apenas soltou uma risada.

“Espero que não esteja bebendo por causa… Bom, quer que eu pare de contar o sonho, Nina? Não me importo, é só uma bobagem qualquer…”

“Cara, não é nada disso. Gostei do whisky, não se preocupe. Fora que eu já parei com aquelas merdas de beber pra caralho. O danoninho-de-cana número um voltou a ser o Roberto aqui.”. Roberto secou o bigode e deu um enorme sorriso; seu orgulho, como todos já sabíamos, era ser chamado de ‘Danoninho-de-Cana’, por mais ridículo que o nome de nosso troféu soasse.

“Se você diz que não tem problemas…
“Bom, George tinha chegado, pelo que me lembro, umas duas horas atrasado, e disse, então, que havia aparecido somente para soltar um ‘oi’. ‘Já tenho de ir, minha gente; marquei um compromisso para hoje à tarde, e não posso faltar.’, disse-nos. Ele terminou a Heineken, enfiou a garrafa de volta ao bolso e, depois, deu um outro abraço em Nina.
“Durante o abraço você parecia muito incomodada, mas ele tentou a acalmar dizendo: ‘Ora, essa é minha poltrona, sabia? Hold you in his armchair, you can feel his disease…’. ‘E estou sentindo a doença.’, você disse. ‘É porque era para ser assim…’, ele respondeu.
“Quando ele a largou do abraço e tornou a se erguer, George estava… Daquele jeito… O cabelo raspado, sem camisa, só com uma calça jeans, e com o abdômen todo queimado da químio… Mas ele ainda sorria; e calçou os patins e foi até um canto do hall em que ficavam as portas de uns dez elevadores.”

O “seu Zé” apareceu e deixou sobre a mesa os copos de whisky de Roberto, mas fazendo questão de me entregar em mãos, delicadamente, o meu. Algo em meus olhos? Um sorriso alquebrado? Ele me perguntou serenamente se gostaria de mais alguma coisa, ao que respondi que não, e em seguida se virou para o resto da trupe para fazer a mesma indagação.

“Vai o de sempre, pessoal?”, Fernando perguntou para nós três. Eu dei de ombros, enquanto que Emílio e Roberto rapidamente responderam que sim. “Então, pode trazer uma quesadilla da Clare, por favor?”. O garçom atentamente anotou o pedido num bloquinho e depois nos deu as costas, ainda que não sem antes me lançar outro morno olhar. Roberto, aparentemente, ainda que dentro das névoas de sua bebedeira, notou o estranho apreço do rapaz e, por debaixo da mesa, me deu uma leve cutucada na perna. Eu ri e o cutuquei de volta.

“Então, onde eu estava…?”, Emílio sem notar as brincadeiras retomou sua história aos lábios. “Bom… Ah, sim…!
“Ele foi até os elevadores e apertou o botão de um que ficava no canto, junto da parede. Perguntamos a ele para onde estava indo, e só nos disse que tinha um encontro no nono andar. ‘John, seu safado, vai encontrar a Yoko agora tão cedo?’, você, Roberto, soltou a ele. ‘Não, não sou lá chegado a mulher feia! Vou é me encontrar com o guitarrista da nossa bandinha…’
“A gente perguntou ‘O quê?! Como assim? Você vai se encontrar com o Harrison, George Harrison?!’, e ele disse que ia, mas que só ele podia subir ou o camarada ia ficar por conta da vida. Enchemos a paciência dele enquanto o elevador não descia, mas a todas as nossas tentativas ele respondia que não e que não. ‘Não dá, o cara vai ficar puto!’”, Emílio gesticulava como George fazia, gestos espaçosos e desengonçados.

“Quando finalmente as portas de metal se abriram, e mais uma vez o pedíamos para irmos juntos, ele deu um grito e entrou no elevador às pressas. ‘Só EU posso subir nesse elevador! Saiam daqui, não entrem, seus idiotas!’, e num mesmo instante já tinha ido embora… Só quando acordei entendi o que ele queria dizer; porque no sonho não sabíamos que estava morto. Para nós ele ia realmente se encontrar com Harrison, e ainda o xingamos um pouquinho depois que ele subiu…”

“De certo modo, ele ia…”, eu disse.

Todos se aquietaram e abaixaram as cabeças para outro gole em conjunto. Fernando pegara um dos Ballantines que Roberto havia pedido, e deveria apenas entornar para tentar afagar sua tristeza; “E pior que o filho-da-mãe ainda nos chamou de idiotas…”, e ele emendou a frase junto do whisky.

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“You can’t keep me Here…”

25 Jul

Recentemente, no post passado, fiz um pequeno comentário sobre mim mesma; disse que me achava uma pessoa, simplesmente, triste e nascida para emaranhar e desemaranhar tragédias. E, num almoço com um grande amigo meu, comentei com ele dessa minha opinião sobre mim mesma. No entanto, longe de concordar, ele me disse, com seus lábios finos movimentando-se em palavras, como sempre, sábias: “Não acho que você seja uma pessoa triste. Acho apenas que você é triste quando tem de fazer o que os outros querem que você faça, quando é obrigada a agir de uma forma que não a agrada. Aí sim você é triste.”… Pensei muito sobre o que ele me disse e, por deus, é a mais pura e puta verdade! Então, se vim aqui somente para me corrigir?, não, não. Vim também para largar dois pequenos textos; só no intuito de tirar um pouco da poeira deste blog velho e enferrujado…
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“Got my Mojo Workin’”
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Minha mão esquerda estava sobre o volante, firme, segura, guiando o carro através das curvas da estrada; enquanto que minha mão direita, estranhamente retesada, movia-se de um lado a outro sobre meu colo.

Levantei os olhos ao retrovisor e, nele, encontrei o rosto de Victor. Ele estava sentado no banco de trás, o corpo inclinado para frente, todo apoiado sobre os joelhos. Aquele par de olhos, negros, pesados e selvagens, dilaceravam o cenário deserto ao nosso redor… Era como se, através daquele olhar tão fixo, Victor despedaçasse lentamente a paisagem, cozinhando-a em fogo baixo numa enorme panela de água fervente.

Observei-o por alguns instantes, e, por estes instantes, Victor agiu como se não me percebesse ali. Baixei meu rosto para, depois, tornar a levantá-lo de volta ao retrovisor: e, então, ele retomara sua atenção à minha presença.

Victor colocou uma das mãos em seu bolso e, dele, tirou um pequeno saquinho de couro. Ele acenou com a cabeça, num gesto silencioso para me perguntar se eu o havia compreendido; e eu, engolindo a seco, respondi-lhe que sim. Em seguida, do mesmo bolso, ele retirou um gélido revólver… Desta vez, apenas balancei a cabeça numa vagarosa afirmação; minha voz falhara.

Retomei a visão à estrada. Minha confiante mão esquerda prosseguia atentamente com seu trabalho, quase como se ela fosse um pedaço à parte de mim; já minha mão direita, agora, remexia-se ainda mais. Respirei fundo, controlei meus nervos, e calmamente liguei o rádio. Uma canção começou – o cd girando dentro do aparelho -, e esta era apenas mais um daquelas minhas queridas, envelhecidas, músicas de rock n’ roll. Victor cantarolava ao fundo, seguindo o passear tranqüilo da música… “And I will stroll the merry way, and jump the hedges first.

Alguns minutos depois, já tendo se passado mais duas faixas daquele meu cd, dei de olhos com a pequena figura de uma mulher, parada junto ao acostamento, poucos metros à frente de nosso carro. Era uma prostituta de estrada, uma jovem bela, de longos cabelos castanhos, enfiada num singelo vestido preto e equilibrando-se em saltos ponta-de-agulha.

Victor se inclinou ainda mais para frente e, ao lado de meu ouvido, se pôs a relembrar-me do que havíamos combinado: “Então, é isso. Faça sua parte, eu faço a minha… Pode ter certeza, assim vamos manter o Sapo bem longe.”. E, com isto em mente, me pus a frear o carro vagarosamente, parando-o bem ao lado daquela mulher.

Destranquei a porta, e ela entrou, em seu rosto pendia um sorriso sujo e silenciosamente delicioso.

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Outro daqueles meus treinos de Inglês:
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We were already on the midst of some country road, when Karl decided to stop at a little village we saw few kilometers way back. He simply leaned his car on the other side of the road and, making a wild curve, turned us to the “right way”, according to him himself… I didn’t say one word on disagreement; he was the Sherlock, I was just doctor Watson.

When we finally arrived on the village, he parked his car beside an atelier where some lady worked making shelters and pillows. We jumped off the car and went in that tiny soft-yellow house; Karl put his hand on the back pocket, and pulled that gun out. “My sweet…”, that time I was like calm down: at this point of our trip, seeing him playing with that revolver’s butt was something strangely normal to me.

He entered the house kicking the door, slamming it against the wall and pointing the gun at the lady’s head. “Good afternoon, ma’am, I’d like to see some of that pillows of yours… Would you mind?”, she, an old and uncommonly beautiful woman, drove on completely scared at the same moment, and, running over the room, started picking up all and any pillow.

Karl chose kind of twenty between the nicest, every single one all handmade. That poor lady was weeping, watching her hard work being stolen and seeing that revolver straight focused now at her heart… My psycho partner asked me, as gently as ever, to help him with the pillows. I took all I could into my arms, and Karl did the same; we pushed them over the car’s back seat, and, after, went back to the atelier.

He made the lady run on again, asking her for the best shelter she had; and, so, made her cry even more when stole it too… “Don’t do that face to me… Breaks my heart to see a so pretty woman as you weeping that much.”, and, giving that fifties lady a long tongue-kiss, Karl said to her a lovely good-bye. We rode away, taking another crazy route that, of course, we wholly didn’t know.
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P.S.: para aqueles que não a conhecem, a letra, cujo verso está no título deste post, se chama Can’t Keep. Uma belíssima música do Pearl Jam, e que indico a todos… Au revoir!

Promessas incompletas e infundadas

2 Jul

“Era algo que eu tinha de fazer por mim mesma. Ouço essa música há meses e sempre penso nesse texto.”, hoje, eu e meu amigo carinhosamente apelidado como Fashion, estávamos conversando, quando me veio a vontade de escrever… Eu estava passando, dos CDs ao computador, minhas músicas do Red Hot, quando resolvi ouvir a faixa catorze do Stadium Arcadium: Hey. Cá embaixo, mais que por desencargo de consciência do que por uma razão concreta, está a letra da tal música:

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Won’t somebody come along
And teach me how to keep it alive?
To survive

Come along and show me something
That I never knew in your eyes…
Take away the tourniquet

I used to be so full of my confidence
I used to know just what I wanted and just where to go
More than ever I could use a coincidence
But now I walk alone and talk about it when I know

Hey, awe yeah, how long?
I guess I  oughta walk away
Hey, awe yeah, so long…
Whatcha’ gonna do today?

I don’t wanna have to, but I will
If that’s what I am supposed to do
We don’t wanna set up for the kill
But that’s what I am about to do

Later I’ll cut you off
When you’re screaming into the phone
Hard to own

Anyway I want to let you know
That everything is on hold
What you gonna do to me?

You used to be so warm and affectionate
All the little things I used to hear my fairy say…
But know youre quick to get into your regret
Take a fall, and now you got to give it all away…

Hey, what would you say if I stay?
Stay for a while if I may
Say it again and I’ll come around
But not for the last time
Hey, what would you say if I change?
Change everything but my name
Play it again and I’ll come around, come around
But not for the last time, not for the last time…

You used to be so warm and affectionate
I used to know just what I wanted and just where to go
And now you’re quick to get into your regret
But know I walk alone and talk about it when I know

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Bom, é claro que aí não está toda a letra da música; já que ela ficaria grande demais para caber bem aqui… Mas, depois, pretendo lhes mostrá-la mais a fundo. É uma letra muito bem trabalhada, cheia de caprichos; muito interessante mesmo.
E, agora, antes que eu me perca, voltemos a falar do tal texto…: como já devem esperar de minha parte, não é uma história alegre. Na realidade, apesar de eu estar, aos poucos, melhorando de alguns de meus problemas, projeto para que meus textos fiquem cada vez mais deprimentes. É claro que não é porque apenas gosto e porque me sinto à vontade com a tristeza; mas também, cada vez mais, quero fazer personagens mais trabalhados, não simples criaturas que habitam contos literários. E, acima de tudo, quero criar enredos mais longos para prender vocês, leitores, e para permitir com que sintam as dúvidas das minhas pobres criações… Por isso que, quase apenas como uma conseqüência, devem ver mais dor entre minhas palavras.
Hoje, se posso lhes indicar algo para que percebam melhor o texto tolo que lhes vem pela frente, diria para que bebam um pouco de licor de café, ouçam Hey e, depois, capotem seus carros numa estrada serrana. ”Beijos do gordo!”
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Liguei o rádio e girei a chave do carro. O motor daquele meu velho Chevrolet tossiu e cuspiu algumas nuvens de fumaça; enquanto que meu rádio, já com o CD dentro do aparelho, se pôs a tocar uma daquelas minhas músicas…

Deixe me ver… Então deixei aqui, na sexta-feira, o disco um do Stadium Arcadium. E parei de ouvir exatamente na décima terceira músca, Wet Sand. É, agora só me resta escutar Hey…”, eu era um verdadeiro aficcionado por Red Hot Chili Peppers desde meus nobres sete anos de idade… E, agora, ali naquele traste de carro, tinha então meus vinte e nove.

Engatei a ré, coloquei o pé no acelerador e, calmamente, deixei que as rodas escorressem para fora da garagem. Lancei um breve olhar à minha pequena casinha, ali, uma daquelas tantas enfiadas entre as labirínticas ruas do Grajaú; e, dentro daquele meu olhar, também entreguei a ela um aceno de adeus… “Won’t somebody come along and teach me how to keep it alive? To survive…”, a música também corria caminho a fora, saindo das caixas de som.

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Fazia pelo menos dois anos que não escutava essa canção; eu sempre a ignorava entre as outras faixas daquele álbum. Na sexta-feira de que falei, por exemplo, quando percebi que ela estava prestes a começar, apenas desliguei o rádio e fui dirigindo em silêncio os últimos quilômetros até minha casa. E por que razão eu mantinha tanta distância dela? Porque ela, simplesmente, parecia contar, para mim mesmo, coisas demais sobre minha vida…

Há mesmos dois anos, ou, mais especificamente falando, há dois anos e seis meses, num sombrio nascer-do-sol de agosto, em 2007, um acidente terrível tomou conta de tudo em mim. Eu estava passando um feriado junto de meus dois melhores amigos, André e Marcio, na casa de serra dos avós de Marcio (casa esta que, depois do falecimento de ambos os avós, fora herdada por ele; mas que, por alguma razão, por costume diria, continuávamos chamando de “casa do avô do Marcio”), quando, repentinamente, ouvimos um barulho ensurdecedor vindo da estrada…

Como disse, a casa ficava na serra, era uma daquelas poucas e pequeninas casinhas que pipocavam, do meio do nada, bem entre as árvores da estrada. E, sendo farreiros como éramos na época, passávamos toda e qualquer madrugada cem porcento ativos; naquele dia, então, não fora diferente… Lá estávamos, os três patetas, sentados na sala e jogando Sueca, quando aquele estrondo ecoou pelas subidas e descidas dos morros dos Três Picos. Levantamos todos num pulo e corremos para a janela da frente; ao encararmos a estrada, que se encarapitava um pouco acima do nível de nossos olhos (já que a casa ficava abaixo da altura da estrada), vimos um carro prateado virado de cabeça para baixo e achatado de cara contra uma árvore.

André, que já tinha tomado muito mais que umas e outras, mostrava então seu lado de menino (que parecia sempre se aflorar com a bebida), e, possivelmente graças aos muitos traumas de sua infância, logo ficou paralisado, duro como uma pedra, e se recusou a ir até o acidente. Marcio e eu, então, fomos os que resolveram correr até o carro. Ambos tínhamos expressões de terror nos olhos, ainda que ambos estivéssemos também bêbados e, teoricamente, alienados.

Subimos o caminho de pedras que saia da casa e zunimos até a estrada, o carro estava do lado oposto da casa do avô, então, desajeitados, cambaleamos até o outro acostamento. Só havia uma pessoa no carro, uma mulher, e seu corpo, esmigalhado entre as ferragens, jorrava litros de sangue para as plantas da beira-de-estrada. Marcio, no mesmo instante em que viu aquela figura contorcida e distorcida, ajoelhou-se no asfalto e vomitou; eu corri até ele, falei para se limpar e para telefonar a jato aos bombeiros – já que André deveria ainda estar estático, encarando a cena pela janela. Ele se levantou, completamente tonto, e correu para fazer o que lhe havia dito; enquanto isso, fui em direção ao carro…

A mulher tinha longos cabelos castanhos, e seu tórax estava amassado contra o volante; aproximei-me da janela e a encarei profundamente, ela parecia estar apenas inconsciente, “ainda viva…”. Depois disso, tentando ser, de algum modo, calculista e frio àquela cena, me pus a observar o carro em si. Cheguei à conclusão de que poderia arrancá-la para fora do carro através de sua própria janela, o que, de certa forma, me foi um alívio… E então, lentamente, enfiei a mão dentro do carro e desatei o cinto-de-segurança, coloquei meus braços ao redor do troco da mulher e a puxei para fora.

Enquanto a puxava, pude sentir suas costelas, fraturadas de cima a baixo, rangendo e estalando… Aquele sangue vermelho que escorria por todas as partes caia sobre minha pele, manchando minha blusa e minhas calças jeans… Quando finalmente tinha conseguido colocar toda ela sobre o leito da estrada, da maneira mais delicada que pudera, encarei aquele pequeno e triste corpo.

Quantos anos ela deveria ter, eu me perguntei… “Talvez uns trinta e alguma coisa.” Como aquilo havia acontecido? “Será que ela dormiu sobre o volante?” Olhei ao meu redor e vi que a manhã subia nos céus; o sol raiava, enquanto que aquela fria névoa da serra se dissipava lentamente. Eu havia, de fato, conseguido tirar a mulher para fora do carro; mas, fora aquilo, eu já não tinha a menor idéia de o que fazer.

Agachado ali, na beira da estrada, os pés sobre as gramíneas que brotavam por sobre o asfalto, apenas consegui observar aquele rosto… Um rosto calmo, lento, como que pensativo em sua inconsciência. Os cabelos castanhos que eu vira de longe agora se mostravam em um curioso esplendor: eram todos decorados por cachos grandes, frondosos… E, sobre seus olhos fechados, duas sobrancelhas grossas, não feitas, pareciam me passar algo de muito doce sobre aquela mulher. “Ela deve ser ocupada… Filhos, marido…”, ela tinha uma aliança de ouro-branco em seu anelar esquerdo, “Deve ser uma boa esposa e uma mãe delicada.”.

Então, enquanto eu a observava, esperando esperançoso por uma rápida vinda da ambulância, a mulher repentinamente abriu os olhos. Foi algo surpreendente, ainda que bem lento: suas pálpebras se descerraram sob o sangue que escorria dalgum ferimento em sua cabeça, suas pupilas estavam dilatadas, e ela parecia completamente letárgica, absorta à dor que deveria estar encravada em seu corpo… Ela me ergueu os olhos e lançou um sorriso.

Alan…”, meu nome não é Alan, e, definitivamente, eu não conhecia ninguém que se chamasse assim; mas, por alguma razão que me pareceu óbvia, ainda que não o fosse, logo soube se tratar de seu marido. Alan… Vem cá, me dá um abraço.”, e aqueles lábios, outra vez, se esforçaram para falarem mais algumas palavras. “Sabe? Estou cansada… Você pode cuidar hoje da Ana e da Izabel? Elas nunca fazem o dever de casa… E acho que já comeram todos os cookies do pote de biscoitos; eu tinha escondido o pote, mas elas encontraram. Cuida delas… Só hoje…?”, e, sim, ela estava morrendo… Alucinando em seus últimos suspiros, suas últimas pesadas forças.

Coloquei as mãos entre os cabelos da mulher e a acariciei da maneira como imaginava fazer seu marido Alan… De meus olhos eu chorava lágrimas chocadas, que corriam através da enorme brutalidade daquela cena. “Ei, queria jogar fora as latas, e os lápis… Mas aquele seu labrador está roendo todas as sacolas. Cuida dele também…” E eu me perguntava o que fariam aqueles quatro, sozinhos, quando ela se fosse… Alan, Izabel, Ana e o labrador, aonde iriam sem ela e onde estavam naquele momento? Ela sairia em poucos instantes; o que eles fariam sem ela?

Um abraço…”, e eu apenas me deitei sobre o corpo dela, tentando ignorar os ossos quebrados, e a abracei ainda como se pudesse fingir ser Alan, ou fingir ser uma de suas filhas… “Sabe que eu sempre lhe peço isso, mas você nunca faz… Por que agora, hein…? Cuida delas só hoje… Você é ocupado, reconheço isso; mas estou tão cansada… Não sei de onde está vindo tanto cansaço… Obrigada pelo abraço, sabe que sinto sua falta de vez em quando…

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Minutos depois a ambulância chegou, e André e Marcio, juntos, os dois acuados, por fim se aproximaram da mulher e de mim. Àquelas alturas eu estava largado no asfalto, e um dos meus braços deitava-se sobre o abdômen da mulher – era um abraço lasso, mas o único que eu poderia dar em alguém que tinha todas as costelas recortadas. Os primeiros bombeiros que viram aquela situação acharam que eu também estava morto; mas depois que me levantei e que, completamente desnorteado, me pus a responder as perguntas de um deles, eles pareceram entender do que toda a cena se tratava… Como nos filmes e nas séries policiais, me enrolaram numa toalha e me deram uma xícara de chocolate-quente… Depois de já haver explicado tudo o que vira, fizera e ouvira, só me restava aquilo; e, assim, observei enquanto embrulhavam o corpo da mulher…

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Como dizia a música, depois daquele incidente horrível, eu apenas andara sozinho, falando do que acontecera somente quando me sentia, de alguma forma, confortável para… “And, now, I walk alone and talk about it when I know…” Por vezes, que não foram poucas, eu sonhara sobre o carro capotado ou sobre a família da mulher de quem eu nunca soubera o nome… Eu ficara tão deprimido depois daquilo que quase tudo entrara ralo a baixo, se não tudo… Levara meu emprego e meu doutorado nas coxas, “I used to be so full of my confidence, I used to know just what I wanted and just where to go…”; terminara com minha noiva em uma ligação de telefone, uma daquelas entre berros, “Later on, I’ll cut you off when you’re screaming into the phone…”; perdera o enterro de André, e faltara a todos os aniversários de Marcio, “Hey, awe yeah, how long? I guess I oughta walk away…”.

Então, ali estava eu: um fumante inveterado, dirigindo seu carro velho e fodido, bebendo um pouco de licor de café direto do gargalo duma garrafa que sempre deixava no porta-luvas… Realmente não tinha muito do que me vangloriar; e, então, o CD corria para outra de suas faixas depressivas: Slow Cheetah, a número sete, o número do leopardo.

Waking up dead inside of my head; will never never do, there’s no med… No medicine to take…”, obviamente havia tentado me tratar com infinitas sessões de terapia. Eu passara por, pelo menos, três psicólogos e dois psiquiatras; mas tudo o que eles sabiam me dizer era que eu tinha um tipo de transtorno pós-traumático… E estava farto de ouvir aquilo, farto de tomar todos os comprimidos, de engoli-los como se fossem pastilhas Mentos ou como se fossem umas daquelas bolinhas de açúcar. De fato, nada parecia me adiantar: assim como leopardos não significavam nada para mim, a terapia me passara desapercebida, e parecera dar sequer um tapa eu meu trauma…

Encarei meu relógio, pendendo num pulso magricelo e pálido, e tentei abocanhar o bocejo que escapava entre meus lábios: “Ok que são quatro e quinze da manhã… Mas ainda temos uma longa viagem pela frente.”… E aonde eu iria fora o que eu me perguntara no dia anterior. Eu sabia que precisava tirar, mesmo que à força, aquela coisa outonal de dentro de mim; ou que, ao menos, precisava tentar de alguma maneira diferente… Após Slow Cheetah terminar, voltei a encaixar a faixa catorze no rádio.

I don’t wanna have to, but I will… If that’s what I’m supposed to do…”, e, depois de pensar muito sobre o que faria para arrancar meu trauma de mim mesmo, decidira que não havia coisa aparentemente mais óbvia: eu tinha de revisitar a casa do avô do Marcio, precisaria rever aquele cenário de anos anteriores…

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P.S.: Antes que eu tenha de ouvir de outra criatura um comentário como “Aê, não sabia que ambulâncias tinham suas próprias maquininhas da Nestlé, com chocolate-quente e tudo mais.”, pelamordedeus…! Tem uma casa do lado do acidente… Seus DEABOS!
P.P.S.: Isso não foi uma afronta a ninguém específico… Juro pelo filho-de-deus crucificado, mortinho e esturricado! (Só falo merda… Me tirem daqui antes que os católicos me queimem numa fogueira…) Ignorem a dupla negação, eu não quis dizer nada com isso… Prometo…!

Controversos

27 Jun

Alguém já percebeu isto? – normalmente meus personagens homossexuais são, a suas estranhas maneiras, pessoas bastante masoquistas… E hoje venho com dois textos, meio que “para encher lingüiça”, de quatro personagens homossexuais. Você que se sente incomodado com masoquismo, ou com homossexualidade: “Oh, sim, isso é uma afronta a você!”, porque estou bem cansada de considerarem textos com esses dois assuntos, especialmente o assunto gay, coisas chocantes, inovadoras ou absurdas. Já está mais do que na hora de vermos tópicos como estes como coisas absolutamente normais, das maneiras absolutamente normais que são! Vocês perceberão que, nestes dois textos, eu poderia muito bem ter posto uma mulher no papel do homem passivo; sim, de fato eu poderia, não faria diferença alguma… Ou seja, o casal gay não é o tema da história, e nada transcorre por sobre o fato desses quatro personagens (Anton e Jeffrey do primeiro texto, Frederico e Jonathan do segundo) serem gays… Afinal de contas, para que eu faria isto? Para ter de falar do sofrimento de pessoas que são homossexuais ou bissexuais ou transsexuais mediante à sociedade? Acho que todos, não só eu, estão cansados disso: cansados de vermos pessoas sofrerem por elas, simples e puramente, serem como são… Logo, não pretendo tão cedo fazer textos quanto a isso. É claro que, graças à minha alma controversa, posso decidir-me pelo contrário do que disse e, dia desses, escrever um texto falando sobre esses tipos de injustiças; mas, vocês, como meus pobres leitores, devem entender que eu terei alguma razão caso o faça…
Portanto, é basicamente isto. Avisados vocês o foram.
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Um Corte;
A terra chacoalhou sob meus pés… Segurei-o pelo braço, puxando seu corpo para um encontro apertado e íntimo: “Beije-me, Jeff…”, e, pela primeira vez, ele não negou minha vontade, deixando para trás as insistências com as quais eu normalmente tinha de lidar.

Jeffrey… O dono do sorriso envelhecido, algo que me fazia lembrar os seriados a que eu assistia no cinema quando pequeno… Jeff, cheio de apelidos e vivendo sempre numa maré de garotas loiras: agora eu o tinha em minhas mãos, mas como conseguira fazê-lo? Ah, eu sequer sabia…

“Anton, você quer que eu o machuque?”, ele me empurrou contra a parede do pequeno corredor onde estávamos e, então, puxou meus cabelos com força. “Se for àquela maneira… Você sabe que aquilo sempre machuca.”, respondi.

A noite estava absurdamente quente e abafada, além de, como de costume, silenciosa… Eu podia ouvir algum grilo, ao longe, executando sua sinfonia, bem distante do prédio de apartamentos onde Jeff morava; e também podia, graças àquela estranha concessão, sentir os arquejos úmidos dum homem queimando meu pescoço…

“Por quê…?”, mais uma vez ele soltou-me uma pergunta. “Por que você quer que eu faça isso se sabe o quanto dói?”, e eu não sabia dizer se era mesmo sua curiosidade que a trazia à tona, ou se ele apenas a fazia para poder ouvir aquela simples e mesma resposta: “Porque isso me dá prazer também… E eu preciso de você, de todo você…”.

E pude sentir o chão tremer novamente… O piso de azulejo do corredor do quarto andar, rangendo entre os rejuntes, parecia poder quebrar conforme minhas forças se desfaziam entre os braços de Jeffrey… “Anton, você está bem?”, pois tudo aquilo era demais para mim: uma vontade que jamais seria preenchida da maneira correta.

Uma rajada de vento veio da janela ao final do corredor, deslocando aquele ar tão pesado e levando algum pedaço de meu corpo para bem longe; “O tempo está mudando, Jeff…”, meus joelhos dobraram sobre o peso de meu próprio corpo, e, por sorte, Jeffrey conseguiu segurar-me antes que eu atingisse o chão.

“Você está se sentindo bem…? Ant, você está sangrando!”

“É apenas um corte…”, que eu havia feito horas antes de encontrá-lo, um corte à faca, enorme, de trinta centímetros de comprimento; e ele levantou minha camisa, encarando num enorme susto meu abdômen rasgado. “Não é profundo, sabe?”, mas o sangue que antes havia estancado voltava a escorrer, passando entre minha virilha…

Então, ele agarrou-me pelos braços e me sacudiu: “Por que você fez isso?!”. Jeffrey era um homem forte, belo, mas com algo insuficiente habitando seu corpo e sua alma… “Você… O chão, sabe? E o prazer e a dor e essa insatisfação, é tudo tão confuso, tão próximo! Jeff, me force como se eu não o quisesse… Talvez assim…”

Eu precisava daquele homem, mas teria de transformá-lo para alcançar o que eu queria… Demais. Fazê-lo perder aquele sorriso antigo, mover toda sua vontade de viver para cima de mim, para completar-me e para afundar minha alma bem além do fundo do poço… E ele teria de fazer o impossível… Fazer tudo… Fazer meu leito…

“Oh… Sabe aquela sensação pouco antes do orgasmo, conhece aquele pico alto e fino de pura intensidade…? Você sabe. Você conseguiria me deixar nele para sempre… Eu vejo isso em seus olhos…”, e aquelas pupilas negras de Jeffrey me encaravam por detrás da minha insanidade… “Não me ama, J.?”.

“Claro que eu o amo, Anton!”

E o teto rosnou para mim com enorme repugnância, enquanto as paredes xingavam meu nome, perguntando a si mesmas aonde eu queria chegar… “Então, me preencha… Eu quero o prazer que só você pode me entregar! Aquilo, oh, sim!”. E, numa questão de segundos, ali mesmo, Jeff tirava nossas roupas, com todo meu sangue manchando seu corpo… “Me leve ao abismo!”, absolutamente desesperado para me empurrar nele.
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E a Sanidade;
Ouvi passos leves e arrastados se aproximando da sala de estar, olhei para trás e dei de cara com Jon. Ele vinha de seu quarto, aquele pequeno cômodo ao final do corredor, e se aproximava de mim com todo seu corpo esboçando um enorme cansaço… Olhos baixios, seu rosto completamente desbotado. Jon se esgueirou até o sofá onde eu estava sentado e, ainda naquele ritmo estranhamente morno, empoleirou-se junto de mim. E ele se sentou daquele jeito antigo que eu tanto gostava, e do qual eu tanto sentira falta naqueles três anos: os pés sobre o estofado, os joelhos próximos ao corpo, a cabeça apoiada contra suas finas coxas…

“Jonathan… Você não deveria estar dormindo?”, e, soltando um leve sorriso, perguntei a ele.

Jon ficou ali, observando-me com seus olhos negros, gordos como os de um gato, antes de pôr-se ao trabalho de me responder: “Se eu conseguisse, estaria dormindo profundamente. Se eu conseguisse… – Mas, e você? Também não está no sono, e acho que não é a primeira vez que faz isso… Não desde que voltou para cá.”.

Olhei calmamente para aquele pequeno rosto, que, mesmo com seus vinte e três anos, continuava um belo rosto inocente e infantil. Eu ri, estiquei o braço para Jon, colocando a mão sobre seus cabelos loiros, e escorri para trás de sua orelha uma daquelas mechas acinzentadas da quais eu tanto gostava. “Loiro-acinzentado… Lembra-se de quando descobrimos que era essa a cor de verdade do seu cabelo?”, e, sem comentar sobre meu sono, e minha insônia, perguntei a ele…

“Isso parece ter sido há décadas atrás, quando, na verdade, mal faz cinco anos…”, ele riu, por todo nostálgico, “Não que cinco anos não sejam muito tempo; mas, sabe o que é, Fred? Esses três anos passaram tão demorados… Eles fazem tudo antes deles parecer distante, esfumaçado.”. E apenas acenei com a cabeça, pois não tinha mais nada a acrescentar, eu já concordava plenamente com o que Jon dissera antes mesmo de ele fazê-lo.

Levantei os olhos àquele velho e estático relógio de parede, que vivia pendurado naquela sala desde que Jon comprara seu apartamento. Eram três da manhã… E, por mais que nada físico houvesse mudado de lugar no meio tempo deste dia até quando eu correra para fora da cidade (também numa madrugada), eu sentia como se absolutamente tudo houvesse se modificado… “Se transformado.”

“São três da manhã, Jon… Vá deitar. Pelo bem de seus estudos… – Ou, se não, ao menos me conte por que não consegue dormir…”

Jon ergueu seu rosto e, num mesmo movimento que aquele meu, lançou um olhar ao relógio… “Estou com medo, Fred. Realmente sinto muito medo de algo…”, então, com isto, voltou a deitar a cabeça sobre as pernas, encarando-me bem em meus olhos.

Logo eu me recordava do motivo que me levara a voltar ao apartamento de Jon. Meu melhor amigo, o irmão que eu acolhera debaixo de meus braços faziam quinze anos, ele estava completamente enfermo… E aquela doença, seja lá qual a que ele tinha, aos poucos parecia tomar conta de seu corpo, um homem tão jovem… – Jon passava horas rabiscando as paredes de seu quarto, as quatro paredes que já não tinham mais um espaço sequer para seus rabiscos; Jon despenteava, penteava, despenteava, penteava, ele brincava com seus cabelos loiro-acinzentados como se fosse o jogo mais empolgante do mundo; Jon dizia, dia e noite, que iria morrer repentinamente, ou que iria se matar… “Jon, Jon, Jon.
O que o fez ficar assim? Meu amor…? O que o fez ficar assim, meu amor?

“Do que você tem medo? Não há nada aqui para se ter medo de… No máximo, você deveria se assustar com a comida do Érico; fora isso, nesse apartamento, juro que não a nada com que se preocupar!”

Jon virou o rosto, o afundou contra os joelhos, e fingiu rir tranqüilamente de minha brincadeira… Eu mesmo fingi achar alguma graça nela. Mas de nada me serviria, quanto menos a ele adiantaria: nós dois sabíamos que realmente havia do que se temer… Ambos entendíamos que piadas, brincadeiras, ou até mesmo a própria felicidade não se passavam de coisas meramente momentâneas. Jon tinha medo, e seu medo era real.

Ele voltou a deitar o rosto de lado, com aquele delgado nariz apontado para mim, e, então, me respondeu… – Preferiria que ele não tivesse correspondido à minha pergunta, que somente a houvesse ignorado: “Tenho medo de mim mesmo.”, porque eu já sabia a resposta horrível que iria receber.

Olhei novamente ao relógio, fingindo que observar os ponteiros pudesse, de alguma forma, me reconfortar… “Três e dezessete.”. Entretanto, vê-los, naquele instante, teve o efeito extraordinariamente contrário… Porque até mesmo nosso velho relógio de parede, bem como os estiletes que eu sabia que Jon mantinha para si, bem como as facas de cozinha, ou seus remédios antidepressivos e cruelmente pesados, ou a grossa corda que ele reservava guardada na despensa… Tudo lhe poderia servir de arma, de “amortecedor”… Nada naquele apartamento reconfortava.

“Ei, Jon… Venha cá…”

E, num abraço gentil, aproximei Jon de mim. Acariciamo-nos lentamente, e lentamente nos beijamos… “Será que isto ainda se salva?”. Afundei meu rosto contra as mechas de Jon enquanto arrancava sua roupa; nós dois caídos naquele profundo sofá cinza. E ele – o jovem rapaz que nossos amigos haviam apelidado, a suas maneiras criativas, de Kurt -, naquele seu estado completamente depressivo e cancerígeno, beijou meus cabelos pretos, longos, impuros e impróprios…

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P.S.: eu tenho de dizer isso… Eu tenho!
“FUCKKÓFI!”, uma homenagem a um homem que mandou todo mundo se danar. E com muito estilo! (Sim, estou sendo sarcástica.)

 

My Lovely… Man?

22 Jun

Há aqueles que achem estranho o fato de que, em meus textos e histórias, normalmente trabalho com protagonistas masculinos. É, isso é bem estranho mesmo; eu concordo com aqueles que o acham! Por vezes pensei sobre o assunto, e, também por vezes, cheguei à conclusão de que era, simplesmente, porque eu lia muitos livros com homens no papel de protagonistas, e que, portanto, havia me acostumado com a idéia. Mas, mesmo assim, vocês não continuam achando estranho o fato de uma mulher preferir escolher homens para a retratar? Eu continuo!
Depois de enrolar muito o cérebro para tentar tratar do assunto, acabei me lembrando de uma coisa… “Ei, e aqueles manolos que usam personagens femininas nos papéis principais?” Afinal de contas, quem nunca leu a letra de Why Go e de Daugther, deparando-se, então, com Vedder contando a história de uma garota deprimida? Ou quem nunca viu os filmes de Hayao Miyazaki? A Viagem de Chihiro, O Castelo Animado, Nausicaä, Mononoke-hime, Kiki’s Delivery Service… Homens usando personagens femininas para se retratar? Bom, não sei se é o caso de eles estarem falando de si mesmos; mas, de uma forma ou de outra, são homens usando protagonistas femininas!
Fiquei meio aliviada com isso? Na verdade, tanto pouco me faz, quanto menos ainda me fez… Em todo caso, por que vim falar disso?  Ah, sim! Porque hoje vou aparecer com um texto um tiquinho aleatório e, nesse texto, nosso personagem principal é o professor de Inglês e de Alemão chamado Roberto… Roberto vem a ser, curiosamente, meu pseudônimo; assim como, vez por outra, uso o nome John (de que gosto muito, muitíssimo) ou um nome qualquer com os sobrenomes Martins Marquez. Então, de certa forma, podem se assegurar de que Roberto é um personagem bem sincero, contando o que eu, P. Guerra, penso, e o contando de uma maneira também muito sincera.

Espero que gostem do texto.

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Cena 1. A tentativa frustrada de convencer sua namorada, e a mochila já feita;

“Você acha que é uma porra dum beatnik, que pode simplesmente pegar suas coisas e ir saindo assim de casa? O que, diabos, pensa que está fazendo?! Pega essa merda dessa mochila, e pode colocando os pés de volta!”

E Léa logo reagia da maneira como eu já esperava. No entanto, é claro que eu não me achava um beatnik, por mais livros beats que houvesse lido; quanto menos estava com os pés fora do chão… Quero dizer, talvez realmente todas aquelas idéias kerouacquianas tivessem corrompido minha alma e revirado minha cabeça, fazendo-me escolher por uma aventura também kerouacquiana… Na verdade, isso, de fato, havia acontecido. E, sim, é verdade…: talvez aquela minha repentina, impulsiva ação parecesse loucura! Afinal de contas, quem, num inferno de mundo como este em que vivemos, resolve fazer algo assim? Pegar uma mochila, pô-la nas costas, dar “tchau” à namorada e fugir de seu apartamento de uma hora para outra, em plena terça-feira… Ok, ok, eu deveria mesmo ter avisado à Léa daquela estranha, e misteriosa, perspectiva de vida que eu resolvera testar… – Ou, então, simplesmente ter escolhido um dia da semana visualmente mais propício para tentar algo assim… – Mas como explicar algo assim a alguém? Fora que, sinceramente, eu não enxergava motivo nenhum para ter de explicar minha idéia àquela garota! Léa me entendia, e ela queria fazer o mesmo que eu, bem em seu âmago ela o queria; quantas vezes já não tínhamos conversado sobre esta curiosa, rastejante e gélida vontade…? Milhares! E eu sabia que ela sabia que eu me lembrava de que ela se lembrava disso, dessas noites, madrugadas em claro, falando à solta de nossos transes sobre o futuro… Então, era por eu saber disso que aquela minha atitude impensada, na verdade, fora pensada (mesmo que apenas em meu subconsciente, e mesmo eu só me dando conta de quanto ela fazia sentido quando eu já estava bem ali, na soleira de nossa casa)… Porque eu sabia que Léa pegaria suas coisas e que ela iria atrás de mim! Só que…

“Vem comigo, amor! Vamos lá, vamos, vamos! ‘Let’s go get lost, let’s go get lost’…!” , e, tentando puxá-la pelo braço, chamei minha namorada para embarcar naquela loucura a que, então, eu dava início.

“Nem pensar! Se você quer inventar uma fantasia dessas, você pode ir indo sozinho… Eu não vou largar minha faculdade, minha família, todas as minhas coisas daqui para perseguir essas histórias doidas! Sinceramente, Roberto, esperava muito mais de você! Que está pensando?! Realmente acha que as coisas vão correr como se você fosse um Morrison, um Peart, um Anthony Kiedis da vida…? Você não é um rockstar, nem é um escritor beat, acabei de lhe falar isso!”, só que Léa não aceitou a idéia… Ela não aceitaria de jeito maneira, eu já havia previsto isso também… E, dando-lhe as costas (costas que eu esperava ter de mostrar somente às pessoas das quais eu não gostava, de que queria me livrar metendo os dois pés para fora do chão de casa, e para dentro do asfalto da estrada), tive de me conformar: aquela era uma viagem para um homem só…

“Merde, Ti Jean.”

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Cena 2. Aquela cena da escada em caracol e da banda de perdedores;

Léa simplesmente bateu a porta na minha cara, desligou o celular e, possivelmente, num daqueles seus atos de fúria feminina, arrancara o fio do telefone da tomada levando aparelho e tudo mais juntos (aquilo já acontecera noutra vez, quando ela não queria atender às ligações de suas tias maternas…). Então, por mais que eu tentasse me comunicar com ela, fosse para pedir permissão a voltar para casa, fosse para deslizar-lhe papos sobre a viagem (papos que eu imaginava poderem ter alguma magia de coerção), Léa não me atenderia tão cedo. O que fazia me sobrarem apenas duas possibilidades, uma bifurcação maldita à qual, sentado na escada de nosso prédio, naquele mesmo momento, eu amaldiçoava. Ou eu assumia minha derrota, e a derrota de todos os planos incríveis que eu havia bolado, e, então, ia me arrastando para casa de algum dos meus amigos para esperar pelo perdão de Léa; ou eu continuava com aquela viagem intensa e frenética, que, fatidicamente, poderia não dar em nada de bom… A decisão era difícil, e tudo me fazia pender para a proposta humilhante e retroativa de correr de volta para debaixo das asas de Léa… Fechei os olhos e, ali, ainda enfiado num cantinho da escada, com o rosto escondido entre as mãos, me dediquei a batalhar sobre o assunto. Algo shakespeariano, “Ser ou não ser, eis a questão?”, e obviamente muito patético.

No fim das contas, eu havia, de fato, chegado a uma bifurcação maldita: deveria aceitar meu destino como professor de Inglês e de Alemão (coisa da qual eu gostava bastante, apesar da má remuneração, dos alunos irritantes nos quais gostaria profundamente de dar um tiro, dos colegas de trabalho fechados e sem visão de vida etc), e, com isso, aceitando meu destino como um trabalhador economicamente ativo, aceitar também fechar meus olhos para aqueles sonhos infantis… Ou eu poderia correr atrás desses mesmos sonhos infantis… Era bater ou correr, babe: simples, eficaz, e continuamente shakespeariano.

E, por mais que eu continuasse pensando e pensando, no fim das contas, não conseguira sair de lugar algum… Abri os olhos e encarei aquela escada que subia em caracol lá do térreo de nosso prédio (não tínhamos elevador no prédio, morávamos numa construção de uns quarenta anos e de apenas quatro andares) até o corredor de meu apartamento. Encarei aquela escada como se fosse a coisa mais eficaz a se fazer, como se fosse algo que poderia salvar milhares de vidas e converter toda uma geração às palavras sábias de Mahatma Gandhi… Encarei aquela porra daquela escada com todas as minhas forças. Por vinte segundos (vinte segundos que, orgulhosamente, posso dizer que pareceram muito mais que vinte segundos. Talvez vinte e cinco ou trinta segundos para mim, naquele meu espaço-tempo distorcido de observador-de-escadas). Até, finalmente, tornar a fechar os olhos.

Estranhamente, quando, naquele instante, tornei a cerrar as pálpebras, caindo na rotineira escuridão dos olhos fechados e da mente pensativa, uma música invadiu meus ouvidos. Era quase como se uma banda inteira tivesse resolvido se sentar ao meu lado, todos encolhidos nos cantos dos degraus para deixar livre parte da passagem, todos entoando juntos a melodia… “Yes, there are two paths you can go by, but, in the long run, there’s still time to change the road you’re on… And it makes me wonder…”, era quase como se Plant estivesse ali também, enfiado no meio daqueles artistas de rua, acompanhado por Page, Bonham e Jonesy… Plant imaginando, cantando, fantasiando… Todos nós, perdedores, imaginando, cantando, fantasiando, após uma longa encaração de escada… E aquilo me fez pensar ainda mais; no entanto, do meio de minhas dúvidas, diferente de antes, surgia agora uma certeza.

Era verdade que eu estaria cometendo uma loucura, e que eu não era uma porra de rockstar ou de beatnik nenhum! Era mais que verdade que tudo poderia dar errado, e que eu poderia acabar morto num canto qualquer do Brasil, fingindo ter tomado a decisão certa, ou acreditando na minha imagem como a de um revolto, de um Che Guevara, um defensor da liberdade de expressão, um Geddy Lee da vida cantando Freewill… Ou algo assim… Mas, também, e curiosamente, aquela letra que Plant me cantara durante anos e anos, por sob sua voz vaidosa e cheia de pompa… Aquela letra também estava certa: se eu não morresse (e que fique claro que eu entendia perfeitamente a possibilidade de bater as botas durante minha viagem), eu ainda poderia voltar atrás, e, ainda por cima, poderia ter alguma história para contar a meus netos (se um dia tivesse algum neto)! A minha idéia imbecil que me pusera naquela situação humilhante, na verdade, fazia muito sentido… E meu subconsciente começava a se mostrar muito espertinho. Aquela idéia imbecil… Ela poderia me dar algo com o que sonhar a cada novo dia, e não simplesmente permanecer como um sonho envelhecido, pouco a pouco se apagando. Eu continuaria sendo o Roberto de sempre, porém, de alguma forma eu me sentiria mais completo… Completo… E, de outra alguma forma, eu sabia que me sentiria mais completo.

“Merde, Robert Plant!”, num segundo, eu já galgava andares abaixo.

Stuck (on here)

15 Jun

Acordar às quatro horas da manhã, depois de um sonho a ver com quentão e com um hotel ao Sul, enfiada no meu sofá de dois lugares e tendo algumas sete rosas escondidas em minha mochila, foi algo, sem dúvidas, estranho… Tão estranho que não tenho muito o que dizer hoje…
E tão estranho que merece algo à altura.
Então, por que não um texto… Em inglês?
Ainda sem um nome decente, The man and the Ship.

 

I’m like a castaway man, with miles and miles of cold and salt water surrounding me and my insanity, with a deep and ocean breeze distancing and keeping me from reality.

I don’t know what I did to end up here… I’m not in an island, I’m in an abandoned ship. Someone, at someday days ago, found me lying alone on an alley, my feet all nude, my body all chill, my mind… All lost: every single thing, up that time, to me, was lost. And, then, this gentle unknown person took me to this… ship…

He, or she, left me a little food and a bottle of mineral water; the bottle I kept here, the food I’ve already eaten. But, instead these, that person left nothing more…

Since that day I’ve not moved from here: I was abandoned in a lost, godforsaken ship, and, so, this ship and I have pretty much in common. Did someone feel my absence? Did my parents, my relatives, my friends or, even, my fiancé look for me? I don’t think so, would hardly think so… And, as this, no one missed driving this ship.

“Vessel, oh, my sad vessel!”. We talk to each other; I say no sense words, like a swan reciting an old, sacred poem; it answers me, with its watery cries and brass grunts… This ship seems to have wrecked here several months ago, and I seem to be his only colleague since then, and for one week now.

The food that stranger left to me I ate at the same day, and, now, seven days later, I’m starving. Someone would say that I should leave here, and go searching for my family before I die on the sea coldness… But I… But that several day I felt asleep on the alley…

That day, I was winding home when I decided to seat down on an alley to simply write… And, now, I declaim to the Ship the words I wrote…: “Don’t know why I’m rushin’ to head home, when there’s absolutely no thing and no one waitin’ for me to return. Maybe I am doin’ that ‘cause I am just frustrated for, either, havin’ no reason to stay here, out on the street with my friends.

“I’m confused, like knocked out, and simply want to lie down… Softly, calmly, ‘downly’… And what after that, instead sleepin’, am I hopin’ for? Do I have, for sure, any reason for bein’ in any place?…

“I got stuck here, on the halfway from my strange bunch of colleagues to the bus stop. Havin’ so many doubts, and hardly something to believe in… On what, on who sould, do I trust? I got stuck, I got no why then.”. 

Petit gateau e Canis latrans umpquensis

5 Jun

Someone eating a thorny little cactus.
Someone drawing an empty sex scene.

Hoje, frases perdidas e curiosas semearam minha madrugada… Dentre elas, as que ouvi no início do incrível filme de Oliver Stone, The Doors: “‘The movie will begin in five moments.’,  the mindless voice annouced; ‘All those unseated will wait until the next show.’. We filled slowly, languidly into the hall. The auditorium was vast and silent. As we seated and were darkened, the voice continued. ‘The program for this evening is not new. You’ve seen this entertainment through and through. You’ve seen your birth, your life and death. You might recall of all the rest. Did you have a good world when you died? Enough to base a movie on?’”, “Is everybody in? Is everybody in? Is everybody in…? The ceremony is about to begin. Let me tell you about heartache and the loss of God. Wandering, wandering in a hopeless night. Out here on the perimeter there are no stars. Out here we is stoned immaculated.”. É claro que acabei de pôr estes poemas sob forma de prosa, ainda que as frases sigam cada verso. De toda forma, como venho dizer, estas estranhas frases deram me vontade de escrever minhas próprias; como, por exemplo, estas duas ao início do post… E outras que, ainda presas, descansam em minha mente. Mas, antes deste filme ou destes versos, havia escrito um texto que, com prazer, gostaria de postar aqui. Este é:

A Estranha do Noroeste; 

Acordei ouvindo aquele som duro e assustador de um trovão golpeando os céus e sentindo gordas gotas de chuva caírem sobre meu rosto. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras estavam incrivelmente pesadas, quase como se eu estivesse dormindo há meses. Deixei, então, que minha mente se levantasse primeiro, para que eu, apenas depois, fizesse o resto… Porém, em questão de segundos, antes que eu sequer pudesse tentar, já me encontrava ensopado de cima a baixo; “De onde está vindo tanta água?”. Continuava a escutar as trovoadas ecoando ao longe, mas agora escutava também a voz de uma mulher, uma mulher cantarolando bem próxima a mim… Abri os olhos.

Ao encarar o meu redor, me vi enfiado nas costas de uma picape cinza, todo meu corpo suingando enquanto o carro corria através de uma estrada, cortando uma extensão imensurável de asfalto. Pus-me sentado e tentei entender o que acontecia, como eu havia parado ali… No entanto, mal conseguia pensar: minhas pernas e braços doíam de ponta a ponta, e minha boca parecia um pedaço de couro, completamente crua e seca. Levantei o olhar ao céu e me deparei com nuvens de tempestade como as quais eu jamais havia visto antes; “Dessas nuvens… Agora faz sentido.”. E, assim como me doera descerrar as pálpebras, então eu batalhava para desgrudar os lábios; o fiz ainda encarando aquele firmamento enegrecido, e lentamente deixei que a água da chuva molhasse minha boca.

And, if you hear me talking on the wind, you got to understand…”, aquela voz feminina ainda chegava até mim, e, de fato, vinha através do vento que zunia pela estrada. Virei-me para a cabine do carro e, sem nem pensar, comecei a socá-la; “Bom, tem de haver alguém dirigindo esse calhambeque; e esse alguém deve ser ela mesma.”. Alguns segundos depois, a picape freava lentamente, caindo para o lado do acostamento; e, quando o carro por fim parara, escutei a porta do motorista bater.

Veio até mim, gingando como um gato vira-lata, aquela mulher pela qual eu já esperava: era uma garota beirando os trinta anos, estava enfiada em calças de um jeans preto bem apertado e vestia uma blusa branca de algodão… Ela tinha enormes cachos castanhos que escorriam por sobre seus ombros, e, cobrindo seus olhos, lá estavam óculos escuros de armação prateada e de lentes marrons. “Hmm… Olá.”, ela parou junto às costas da picape e, com as mãos encaixadas nos bolsos, me cumprimentou daquele jeito tão simples. E, enquanto isso, a chuva continuava a cair, agora molhando também o corpo daquela curiosa, distante figura…

“Oi.”, cumprimentei-a de volta, “Será que posso saber o que estou fazendo no seu carro?”, e logo completei, perguntando sem qualquer rodeio. A mulher me lançou outro olhar por debaixo de seus óculos de policial e, sem também se preocupar com formalidades, rapidamente entregou-me uma resposta: “Essa é uma história meio longa, melhor lhe contar pelo caminho… Vem, salta, vai para o banco do carona.”. E, assim simplesmente, ela me abriu a parte de trás da picape e deixou que eu descesse. Senti-me intrigado com aquilo de “uma história meio longa”, e também com aquele ar tão cru da mulher, mas preferi não discordar e segui-la; “Ok, que assim seja.”.

Entramos no carro, e ela, de imediato, religou o motor ainda quente, dirigindo a picape para fora do acostamento do mesmo jeito lento e calmo com o qual titumbeara até ele. Lancei breves olhares para o painel do carro, me deparando com um enorme e rústico apanhador-de-sonhos dependurado em seu retrovisor: era extremamente bonito, e eu podia notar com clareza que havia sido feito, detalhe por detalhe, à mão… Fiquei quase que por um minuto admirando o trabalho tão sutil daquele artesanato, como se eu que houvesse sido capturado pelo apanhador; mas, depois de recuperar meus olhos a mim mesmo, dei a encarar a figura daquela mulher pela segunda vez.

Seu perfil era tão belo quanto sua fronte: seios fartos pendiam por debaixo de sua blusa sem o menor sinal de um sutiã para prendê-los, e seus olhos ainda se escondiam por debaixo das lentes castanhas… Havia ainda um outro detalhe nela que me chamou a atenção: subindo desde seu cotovelo direito e entrando por sob a manga de sua blusa, pude ver uma tatuagem preta e branca de um totem norte-americano… Aquelas figuras mal encaradas de águias e de estranhos espíritos indígenas fizeram um calafrio subir por minha espinha: parecia quase como se aquela mulher mesma fosse uma índia debaixo de sua pele leitosa, ou que ela estivesse possuída por uma daquelas estranhas figuras. Enredei meu olhar para frente e decidi não pensar naquilo; afinal de contas, eu deveria convir, havia ali algo muito mais preocupante que um apanhador-de-sonhos ou que uma tatuagem… “Que diabos de história deve ser essa? E como ela pode ter me feito parar… Parar aqui.

P.S.: acredito que, antes de qualquer frase vaga, o título deste post tenha sido um pouco… Misterioso. Então, cá está a explicação: como podem ver, estou meio obcecada por desertos e índios estes dias. Isto descende, em parte, do fato de ter visto o filme dos Doors e, noutra, de estar assistindo a alguns programas sobre culturas antigas. Todavia, ao escrever aqueles dois versos, estava pensando em algo como o texto acima: um homem, vagando moribundo pelas Badlands, e tendo chance de comer apenas um cactus; enquanto, sentada em seu ateliê, uma pintora desenha, tristemente, a cena de sexo com seu vazio marido… E a que coisas cactus me ligam? Desertos, deserts. De que coisa sexo me lembra? Chocolate, dessert. Simples, não? Desserts, deserts. Um bolo francês, um coyote da costa noroeste.

Outra vontade inútil

2 Jun

Minha mente está inerte, como que afundando numa névoa azulada, acinzentada… Mas, ao mesmo, meus dedos se movimentam incessantemente… Dez tristes trabalhadores sob a ordem de um homem perdido; um patrão alcoólatra perseguido por seus vícios. Ele os ordena que construam uma ponte acima dos céus, e eles, de imediato, começam aquilo que será apenas frustração… Pobres almas, que pena tenho de todas elas, todas as onze! Pois, pobre desta desconexão entre meus membros; que pena desta minha vontade que não encontra caminho pelo qual andar…

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Uma Longa História;

Andava lentamente, com as duas mãos no bolso para tentar mantê-las aquecidas, enquanto eu e Victor descíamos aquela estrada escura em direção ao posto de gasolina mais próximo. Nós conversávamos distraidamente sobre nossos trabalhos; eu lhe contava por alto meus estudos da faculdade, ele me explicava sobre seus licores artesanais. E assim íamos seguindo por aqueles longos quatro quilômetros em nossa busca por queijo-prato e por algumas latinhas de soda.

Conhecera aquele homem na mesma tarde quando, desavisadamente, ao lado de meu casebre, ele montara uma de suas barraquinhas. Eu estava prestes a sair em minha moto, indo em direção à cidade, no momento em que vi um rapaz vendendo garrafas de bebida sob a sonolenta sombra de uma árvore. Aquela imagem de imediato me capturou, e, num instante, estava conversando com Victor…

Posso até dizer que Victor em si também me capturou: calmo e compreensivo, com o rosto de tez morena se escondendo atrás de cabelos longos e negros, o rapaz de nome espanhol era uma companhia inigualável. E, então, desde as nove e meia da manhã até aquele prezado momento (às onze e quarenta da noite), nenhum dos dois se desgrudara do outro. Convidei-o para passar a semana em minha casa, e ele retribuiu me dando em mãos duas belíssimas garrafas, uma de amarula e outra de cappuccino; “Os licores, como disse, eu fiz com as receitas de minha avó; mas a garrafa, ah, isso não lhe contei! Pode parecer história de cozinheiro, e juro que não é: meu pai e minha mãe que fazem as garrafas; são sopradores de vidro profissionais!”.

Acho que nunca vira alguém com tanto orgulho das raízes quanto aquele esperto rapaz… Contava suas histórias serranas com água na boca e, sem dúvidas, um dia viraria um avô incrível, e seus netos o amariam com todo o coração. Eu mesmo, em um único dia, já poderia dizer que o amava, e colocaria ambas as mãos no fogo por ele…! E como eu me ria daquilo, como eu sentia a falta de uma boa amizade!

“Nesse posto de gasolina”, Victor prosava. “Não se assuste, mas nele está sempre um grupo de jovens; são muito divertidos e amigáveis, mas são uma cambada de beberrões… Eu era muito amigo de um deles, só que as coisas começaram a pesar. Antes era dia sim, dia não que eles enchiam a cara: agora, toda noite você os encontra ali. E, fora isso, partiram para uns vícios mais aflitos… Esse meu antigo parceiro, Júlio, hoje está sempre com o braço espetado. Você sabe o que isso quer dizer, não? Não gosto nem de contar; me dá uma tristeza muito grande só quando lembro, quando falo então…!”.

“Entendo bem essa história, rapaz… Minha antiga namorada (na realidade, minha única namorada) também se enfiou nesses meios: do álcool para a maconha foi um passo, da maconha para o cigarro, uma evolução, do cigarro para a cocaína, um pulo… Um pulo no abismo, mas um pulo… Depois que essa última fase começou, eu nem mais conseguia dizer que a conhecia; era assustador…”

Mas, fosse entre assuntos melancólicos como aquele, fosse nos divertindo por outras pastagens: “Falo sério, Roberto, nunca me ensinaram a cozinhar um só prato! Quando menino, eu pegava aquele caderno enorme da minha avó (de um palmo de largura!) e começava a esmiuçar as receitas todinhas… Até que, certo dia, minha mãe me disse: ‘Você cozinha mil vezes melhor que qualquer um nessa casa. Quer virar mestre-cuca e quer um bom treino para isso? Você vai passar a preparar todas as refeições!’. E é claro que ela disse brincando, mas eu levei muito a sério, especialmente porque gostei da idéia; então, a partir dali, comecei a fazer comida para todo mundo da casa… Minha irmãzinha mais nova, Paulinha, adorava me ajudar: era uma graça nós dois enfiados na cozinha!”.

“Ih, lá na minha casa o máximo que eu fazia era lavar a louça! Todo prato em que eu colocava o dedo dava errado; e nisso era meu irmão que falava: ‘Você tem o dedo pobre, Roberto, pode desistindo desses cantos!’. E até que eu ficava feliz em não ter de ajudar na cozinha, porque assim sempre me sobrava tempo para escrever, sabe? Essas coisas de escrever e de ler que são minhas verdadeiras aventuras… Acho que por isso fui parar na faculdade de História; não tinha outro rumo para mim que não fosse esse!”, eu e Victor acabávamos arrumando mais e mais corda para puxarmos as palavras conforme nos enveredávamos por aquela estrada tortuosa.

Até que, finalmente, e, acho, uma hora depois de nossa saída, chegamos ao desejado posto… A loja de conveniências (como eu tanto rezara, louco de vontade para preparar um sanduíche com um pouco de queijo) ainda estava aberta, e seu nome piscava através do letreiro de neon roxo: O Barco, e um nome bem estranho pelo visto… Por alguns segundos fitei aquele letreiro, tentando entender porque diabos uma loja de conveniências no meio da serra se chamaria “O Barco”; mas, sem respostas, acabei ignorando tal estranheza e me rolando a outros assuntos.

Um deles, por exemplo, era aquele do qual Victor havia me avisado: o grupo de bêbados que papeavam numa barulheira só, todos sentados ao lado da loja enquanto estendiam garrafas de vinho de mão em mão. Ao passarmos por eles, para entrarmos na loja, empurrando aquelas típicas portas de vidro com aqueles típicos sinos, reparei na expressão ligeiramente trágica de Victor, que virava o rosto para não ver seu amigo. Encarei o grupo naquele relance antes de entrar no estabelecimento e imaginei qual deles poderia ser Júlio… “O de cabelos curtos, pintados de loiro… Ele? Júlio?”, e senti até certa vontade de chamar o nome, mas, muito consciente da idiotice que seria, me resguardei.

Segui Victor que vagava sabiamente entre as prateleiras, já conhecendo onde ficava cada coisa; e, em questão de três minutos, nossa caçada (que começara humildemente em míseros queijo e refrigerante) agora culminava numa cesta cheia de ingredientes e de guloseimas. Fomos, então, até o caixa e, calmamente, enquanto a atendente passava os produtos pelo leitor, nos pusemos a ensacar nossas compras. “Ei, uma coisa que não me contou é por que você foi comprar uma casa bem ali, no meio do mato, perto de nada mais se não aquela loja de mel…?”, ele me levantou os olhos conforme suas mãos seguiam aquele processo mecânico de abrir os sacos de plástico.

“É verdade… Acabamos falando de tantas coisas que nem comentei sobre isso!”, eu cocei o queixo para encontrar um começo simples, que não fosse embolado nas muitas histórias que, de fato, haviam me levado até ali. “Falei dos estudos em que estou trabalhando… Bom, eu queria poder concluí-los com calma (coisa que nunca tenho em minha casa na cidade), e, tendo vendido meu carro antigo, estava com um dinheirinho sobrando. Fiquei sabendo, entre as conversas de sábado da família, que um dos meus tios estava vendendo uma casinha na serra, um casebre meio desmantelado e corroído por traças, mas que, no geral, era muito simpático… E, como eu sempre fui um cara mais quieto, de logo me interessei pela idéia! Foi mais ou menos isso, nada muito floreado.”Já tínhamos acabado de guardar tudo e, agora, cada um contava o dinheiro para pagar sua parte; Victor entregou à menina atendente uns trocados que tirara do bolso e, depois, se colocou a prender os longos cabelos com um elástico que levava no pulso. “Nada muito floreado?”, ele riu, “Isso não me parece muito do seu jeito; ou, pelo menos, do jeito que se mostrou…”, e, logo em seguida, me lançou um olhar estreito com aquelas duas pedras ônix que eram suas íris.

Pela primeira vez no dia, levei um susto com Victor: aquele seu modo de ser à la rapaz do interior, num único flash, se desmantelara diante de mim. E, como não imaginara antes (como não chegara nem perto de imaginar), ele me mostrava algo que beirava um estranho quê: um quê sedutor e muito felino. Sem ter muitas opções, eu também soltei uma risada, talvez ligeiramente aflita, e lhe respondi: “Ok, de fato não é bem esta história… Digo, o que lhe contei é a mais pura verdade; mas tenho também uns detalhes. Acho que vou os contando aos poucos, temos uma semana afinal de contas!”.

A Draft of a River Dancin’ on the Sound of Madness

1 Jun

Recentemente descobri uma maneira, no mínimo, interessante para que eu possa treinar minha escrita… Bom, assim como desenhistas fazem rascunhos como um modo de dar o primeiro pontapé a seus projetos, por que nós, os tristes, cansados e amargurados que amam escrever, também não o poderíamos? E este foi meu jeito, até que simples, de treinar…
Desde que me veio a idéia, produzi já três rascunhos: dois deles, pura vagabundagem, e o terceiro até que merecendo algum futuro… Ainda que um futuro obscuro, entre vidros marrom-amarelados, entre aqueles potes em que guardamos remédios. [...] Em todo caso, tendo nada mais a fazer (e esperando ansiosamente por essa madrugada, que talvez me guarde algum pedaço de texto entre seus dedos canhestros e soturnos), resolvi postar o Rascunho de Vidro e o Vagabundo Número Um… Espero que curtam!

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O Rascunho de Vidro;

Outra tarde gélida de junho, e lá estava eu, tristemente sentado diante de minha escrivaninha enquanto observava a paisagem campestre, deserta através da janela a meu lado… Retomei o olhar, encarando então aquele bando de papéis, livros, revistas e discos que estavam amontoados naquilo que eu carinhosamente chamava de “mesa de trabalho”. E um suspiro dolorido escorreu por meus lábios sem que eu pudesse contê-lo…

Rita estava à porta do escritório, quieta e estática para que eu não a percebesse ali: mas há tempos ela fazia aquilo, de ficar me encarando escondida, com as sobrancelhas franzindo num olhar preocupado, e há tempos eu sabia daquilo. Ela observava meu braço engessado, o braço direito, que eu quebrara desde os dedos até o ombro, deitado sobre meu colo e completamente imobilizado… Rita temia, entre pensamentos trêmulos, que eu fizesse o mesmo com o esquerdo; eu temia, através daqueles meus suspiros, que tivesse de repetir o mesmo com o esquerdo.

“Rita, meu amor… Deixe de ser boba e venha aqui me dar um beijo…”, disse dando uma risada leve e tentando espantar aqueles ares negros, corvos negros, que nos sobrevoavam. E minha delicada esposa, então, veio até mim: seus cabelos escorridos e loiros caindo sobre o rosto, e aquele casaco de meu avô cobrindo quase todo seu tronco; “Minha delicada, e pequena, esposa…”. Tirei aquele enorme pedaço inútil de gesso, que meu braço agora era, apoiei-o sobre a escrivaninha, e deixei que ela se sentasse em meu colo. Rita e eu nos beijamos e nos abraçamos calmamente, para, depois, deitarmos nossos olhares sobre aquela mesma “mesa de trabalho” que eu observava a início.

“Você deve estar sentindo falta, não é?”, ela me perguntou quase que de surpresa; “Há quinze anos estamos juntos, e há quinze anos sei que sou apenas sua amante: seu amor são estes textos… Por todos estes anos, nem um mês você pôde ficar sem escrever um deles, e agora você está há quatro sem fazê-lo.”… Em nossa casa, aquele assunto, meus textos, eram quase que um segredo que observávamos por debaixo das cobertas: Rita lia cada um deles, mas jamais comentávamos sobre aquela minha dolorida paixão, a consorte fiel que eu me negava a confessar…

“Não… Estou me sentindo mesmo como um grande idiota.”, baixei a cabeça e deixei que as palavras rolassem para fora: era-me difícil falar daquilo até mesmo com Rita. “Este braço maldito dói dia e noite, não me deixa esquecer o quão… Merda… O quão merda sou.”
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Vagabundo Número Um;

O ar assobiou: mais um carro passava por mim, rasgando completamente a escuridão alucinante daquela estrada deserta… Fazia mais de três horas que eu seguia caminhando a passos trôpegos pelo meio-fio entre o duro asfalto e o deserto cru; “Já não agüento mais esta merda.”, mas tudo o que eu podia fazer era continuar andando. Às minhas costas jazia o ermo de onde eu havia vindo: um lugar caído tão completamente no vazio que a única coisa a se ver dentro dele era a Lua, aquele corpo gordo, branco brilhando no topo do céu… Adiante, as luzes da cidade: luzes acolhedoras para quem se encontra largado junto à estrada, mas luzes que eu sabia serem não mais que obscenas.

E logo não vou agüentar aquela merda… Que se foda.”, e então respirei fundo para mergulhar naquilo que meu melhor camarada chamava em suas histórias de “a divisa entre o fim e o início da linha”, pois eu realmente não podia fazer outra coisa se não seguir minha caminhada estúpida. “De onde eu tirei a idéia de fazer isso?”, há horas eu andava e há dias eu me enfiara na estrada; e meu objetivo? Bom, esse era nada mais que outra estupidez: encontrar minha garota, Sara, que tinha fugido de casa e corrido para aquela cidade, sabe deus por que… “Que merda, Sara… E que saudades de você!”, e, como eu era um falido e como os pais da menina eram dois desnaturados, eu tinha mesmo de seguir até aquele fim de mundo ou por caronas ou a pé. É claro que podia desistir no caminho, dar meia volta e retornar a casa, mas a imagem de Sara que se alojara em minha mente, dela abandonada à própria sorte num lugar tão infeliz, fosse num beco ou num bordel: aquela imagem me fazia insistir e empurrar aos limites… “Pobre garota”, suspirei, “No fim das contas, a única pessoa que corre atrás dela sou eu; e, convenhamos, isso não é nada bom.”.

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